Críticas


FESTIVAL DO RIO 2007: DUAS PÁTRIAS+JIHAD DO AMOR

De: CHRISTIAN LIFFERS / PARVEZ SHARMA
22.09.2007
Por Carlos Alberto Mattos
ENTRE O MACHISMO E O ALCORÃO

Nos arredores de Havana, um grupo de rapazes dança alegremente numa festa gay clandestina. Num mercado do Cairo, duas moças arriscam passear de mãos dadas. São atitudes de grande perigo em países que não toleram a homossexualidade. A mostra Mundo Gay traz esse ano dois docs sobre essa gente corajosa que desafia seu meio.



Duas Pátrias: Cuba e a Noite enfoca o dia-a-dia dos gays masculinos cubanos num crescendo de audácia – de um discreto assistente social a um transexual que desfila seu charme nas noitadas do Malecón (a célebre avenida costeira de Havana). Jihad do Amor recolhe histórias de opressão e libertação entre muçulmanos que não querem abdicar de sua fé por causa de uma preferência sexual considerada “maldita”.



Ambos os casos podem soar déja vu pelos padrões do Ocidente desenvolvido, mas o fato de as coisas ainda se passarem assim em parte considerável do mundo dá o que pensar. Os muçulmanos representam quase um quinto da população mundial vivendo sob o espectro punitivo de Sodoma e Gomorra.



Jihad do Amor é especialmente impressionante por mostrar pessoas que se angustiam na busca de uma forma de conciliação entre os dogmas do Islã e os reclamos do corpo e do espírito. Em geral, lutam para reinterpretar o Alcorão ou cedem a casamentos de conveniência enquanto continuam “fazendo” econdido. Mas também topam com a hipocrisia. Um jovem indiano conta como ouviu a condenação inflexível de um líder religioso para logo em seguida ser convidado a fazer amor com ele.



O diretor Parvez Sharma nasceu na Índia, é gay e muçulmano. O produtor é Sandi Simcha Dubowski, que dirigiu Tremendo Diante de Deus, sobre gays judeus ortodoxos. O filme aponta para uma acepção mais aberta do conceito de “jihad” (guerra santa), referindo-se à luta interior de cada ser humano. A fim de proteger a identidade de alguns personagens – e também a integridade de suas famílias –, ele usou vários recursos para esconder seus rostos. O risco é de morte e não se limita a países “fechados” como Irã, Egito e Paquistão. Sharma filmou também na Índia e na comunidade muçulmana da África do Sul, onde um ímã (líder religioso) gay, casado e com filhos, ousou declarar-se num programa de rádio e ouviu pedidos de pena de morte.



Para muitos dos homossexuais islâmicos, a saída tem sido a imigração. O filme encontra refugiados na França, na Turquia e no Canadá. Já para os gays cubanos, escapar do jugo machista da ilha é tarefa bem mais difícil. Em Cuba, ao contrário dos primeiros anos da revolução, reina hoje uma certa tolerância para com a expressão homossexual. A turma do Malecón, por exemplo, não parece se importar muito com as rondas freqüentes da polícia por ali. O inimigo maior é a discriminação no trabalho e nas relações sociais.



O diretor de Duas Pátrias: Cuba e a Noite, o alemão Christian Liffers, talvez não goste de saber que seu filme está numa mostra “especializada”. Ele o considera como um libelo pela rebeldia em geral – e conclui o doc com uma interpretação queer da clássica Soy Rebelde. Liffers descobriu o tema através do filme Antes que Anoiteça, de Julian Schnabel, sobre a trajetória do cubano Reinaldo Arenas, que se tornou dissidente, saiu de Cuba e morreu de AIDS no exílio. Os personagens de Duas Pátrias se apresentam lendo trechos de Arenas diante da câmera, entre os quais o poema que deu título ao filme.



Com entrevistas quase sempre em off, Liffers privilegia as imagens dos ambientes e as ações cotidianas. Não é certamente a primeira vez que gays cubanos abrem o jogo diante da câmera, mas não tenho notícia de outro filme que descerre a cortina em tal extensão. O filme nos leva a festas, um show de travestis, um estúdio de nus maculinos e terreiros de santería (o candomblé cubano), onde a homossexualidade é tolerada. A interação entre religião e padrões de comportamento é central para mais de um personagem, assim como a relação aberta com as mães se destaca num contexto de chacotas e reprovações silenciosas. Provavelmente por conta da ignorância alemã, uma procissão da Virgem católica é identificada no filme como culto a Iemanjá.



Os dois filmes tratam quase que de planetas diferentes. Duas Pátrias é ora melancólico, ora cúmplice de pequenas afrontas. Jihad do Amor tem um tom mais grave e praticamente nenhuma nota de relaxamento. Mas eles têm em comum mostrar a realidade gay como uma batalha permanente contra o preconceito, a obscuridade e a solidão. Em grande parte do mundo, isso ainda se faz necessário.



Visite o DocBlog do crítico.



DUAS PÁTRIAS: CUBA E A NOITE (DOS PATRIAS: CUBA Y LA NOCHE)

Alemanha, 2006

Direção e roteiro: CHRISTIAN LIFFERS

Duração: 84 minutos

Site oficial: clique aqui



JIHAD DO AMOR (A JIHAD FOR LOVE)

EUA, 2007

Direção e roteiro:
PARVEZ SHARMA

Duração: 81 minutos

Site oficial: clique aqui

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