Críticas


FESTIVAL DO RIO 2007: SATANÁS

De: ANDRÉS BAIZ
Com: DAMIAN ALCAZAR, BIAS JAMARILLO, MARCELA MAR
25.09.2007
Por Nelson Hoineff
O ENCARDIDO

Em 4 de dezembro de 1986, um cidadão colombiano aparentemente entrou num restaurante de Bogotá e saiu dando tiros a esmo, matando algumas dezenas de pessoas, no que ficou conhecido como “o massacre de Pozzetto”. Digo “aparentemente” porque há uma novela, escrita por Mario Mendoza, em que se inspira o filme colombiano Satanás, e nenhuma informação confiável, em todo o material encontrado sobre este filme, que atrele os fatos narrados à realidade. Ainda assim, um texto de um colombiano indignado pode ser encontrado quando se pesquisa informações sobre o trabalho. O autor do texto não gostou nem um pouco do que viu. Assina-se apenas garciamarcela e diz que o autor do filme “acrescenta personagens e situações horrorosas (…) não conectadas à história real”.



Os personagens e situações a que se refere o leitor são, entre outros, um padre apaixonado por sua empregada, uma mulher que mata os filhos porque não tem como alimentá-los, um veterano da guerra do Vietnã que vive com a mãe que o atormenta e uma trabalhadora que torna-se prostituta, golpista e é violentamente estuprada. Na história escrita por Mendoza e dirigida por Andrés Baiz, de 31 anos, não apenas os personagens aparecem mas estão inter-relacionados. Tenho especial predileção pelo vértice representado pelo padre. Enquanto a mãe mata seus filhos ele está comprando sanduíches para as crianças; quando o veterano do Vietnã (autor dos assassinatos em série) lhe telefona para pedir ajuda, (uma ajuda que o sacerdote havia oferecido) ele não pode atender porque encontra-se em coito anal com sua amada. Não se pode, enfim, dizer que o religioso não está fazendo a coisa certa. O problema é que ele está sempre fazendo na hora errada.



Talvez venha daí a idéia de nomear o romance – e o filme – Satanás. Não existe possessão alguma no assassino, não mais, pelo menos, do que em todos os personagens que o rodeiam, com ênfase, é claro, no presbítero, que não apenas goza as delícias do sexo, mas também chuta mendigos. Todos esses personagens – e o tom clerical presente do início até quase o final do filme – é que faz dessa produção colombiana uma obra mais do que defensável, verdadeiramente deleitável.



Há seis anos vi na Canção Nova – uma excelente rede de TV católica recebida em alguns sistemas de TV por assinatura – um padre de grande carisma, que chamava o demônio de “encardido” mas o tratava como gente de casa. Lembrei-me dele logo no início de Satanás, porque esse é o primeiro mérito do filme, não dar ao diabo o que Nelson Rodrigues chamava de “tratamento de envelope”. Fiquei decepcionado quando o filme revelou-se a história de um assassino serial, mas feliz porque essa revelação só acontece nos últimos minutos. Até ali, o que Baiz estabelece é um diálogo com o encardido. Um diálogo mais real, plausível e íntimo do que muitos casamentos duradouros.



# SATANÁS

Colômbia/México, 2007

Direção:ANDRÉS BAIZ

Elenco:DAMIAN ALCAZAR, BIAS JAMARILLO, MARCELA MAR.

Duração:100 min.

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