Críticas


MORTE DE GEORGE W. BUSH, A

De: GABRIEL RANGE
Com: BRIAN BOLAND, BECKY ANN BAKER, ROBERT MANGIARDI
07.03.2008
Por Carlos Alberto Mattos
PSEUDO-DOCUMENTÁRIO SOBRE OS ENGANOS DE UMA ÉPOCA

O exercício da suposição é central em A Morte de George W. Bush. Atire a primeira pedra quem já não especulou sobre essa hipótese, seja por temor ou por desejo. O filme, portanto, trabalha numa esfera algo familiar, fetichista – e para alguns até excitante. Com apenas uma ressalva ainda mais catastrófica: se Bush morresse no mandato, assumiria Dick Cheney!



O diretor britânico Gabriel Range, naturalmente, considerou a imaginação do público quando pensou no projeto. Ela já havia realizado dois telefilmes do gênero para a BBC2: The Day Britain Stopped (colapso do sistema de transportes) e The Man Who Broke Britain (ataque terrorista na Arábia Saudita e recessão econômica no Ocidente). Depois de anunciar a realização de Death of a President para o canal digital More4, Range recebeu algumas ameaças de morte. Hillary Clinton chamou o filme de “doentio” antes mesmo de vê-lo. Donos de cinema nos EUA amarelaram para distribuí-lo. Range teve que se desdobrar em explicações de que não se tratava de uma “fantasia liberal”, nem de um filme pró-atentado.



De fato, ele usa a estrutura de um falso doc para engendrar uma análise razoavelmente complexa da situação implantada após o 11 de setembro. Com imensa habilidade, o filme reúne considerações ficcionais – mas fortemente enraizadas no real – sobre o trauma da guerra da mentira (Iraque), a urgência em demonstrar o perigo árabe, a obsessão do governo Bush (especialmente de Cheney) com a Síria de Assad, a supressão de liberdades em nome da guerra ao terror, a facilidade de mobilizar a mídia para construir falsas verdades. O próprio filme, aliás, é uma ilustração dessa última possibilidade.



A manipulação de materiais de arquivo se dá em níveis de rara ousadia. Cenas de eventos diferentes se justapõem para compor determinados momentos. Discursos têm seus contextos modificados. As exéquias de Ronald Reagan “fazem o papel” dos funerais de Bush, com direito a troca de nomes na fala de Cheney. Personagens fictícios foram adicionados a cenas reais por efeitos de computador, à moda de Zelig.



Há um sem-número de cenas produzidas e captadas por câmeras de vigilância, assim como Gabriel Range filmou visitas de Bush a Chicago especialmente para utilizar nesse trabalho. O estilo da narrativa alterna a reportagem/compilação (em muitos pontos incrivelmente semelhante a Ônibus 174) e as vinhetas ilustrativas à moda de Errol Morris.



A perícia da dramaturgia pseudo-documental tem alguns pontos altos. O discurso real de Bush em Chicago, analisado passo a passo por uma colaboradora e um jornalista fictícios, é um deles. A sucessiva aparição e reconsideração de suspeitos exemplifica perfeitamente os rumos de uma investigação como aquela.



Particularmente eficaz é a direção de atores, que encenam seus depoimentos num misto de improvisação e compreensão profunda do suposto fato. À exceção da advogada do acusado sírio, que super-representa, os demais têm performances repletas de sutilezas “convincentes”.



Mesmo com todas essas qualidades, seria o caso de se perguntar que importância teria um falso documentário sobre uma hipótese fictícia. A Morte de George W. Bush impressiona pela destreza técnica, mas se fica mesmo na lembrança é pelas ilações que faz a partir de sua arrojada hipótese. A ficção aqui é uma forma de expor os enganos de uma época.



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A MORTE DE GEORGE W. BUSH (DEATH OF A PRESIDENT)

Inglaterra, 2006

Direção:
GABRIEL RANGE

Roteiro: GABRIEL RANGE, SIMON FINCH

Fotografia: GRAHAM SMITH

Edição: BRAND THUMIM

Música: RICHARD HARVEY

Elenco: BRIAN BOLAND, BECKY ANN BAKER, ROBERT MANGIARDI, JAMES URBANIAK, CHRISTIAN STOLTE

Duração: 90 minutos

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