Críticas


ILUMINADOS

De: CRISTINA LEAL
Com: ANGELA REBELLO, ROBERTO BOMTEMPO
06.09.2008
Por Carlos Alberto Mattos
LUZ, CÂMERA, DIFERENÇAS

Uma idéia bonita levada a bom termo – assim é Iluminados, de Cristina Leal. Ela chamou seis dos melhores diretores de fotografia do cinema brasileiro para enquadrar e iluminar uma mesma cena de acordo com suas preferências. E um sétimo, Antonio Luiz Mendes, para fotografar o resto do filme. Numa espécie de moldura, abrindo e fechando o doc, ref(v)erências ao primeiro gênio das imagens em movimento entre nós: Edgar Brazil, o fotógrafo de Limite.



Sem ser didático, mas de maneira bastante instrutiva, Iluminados vai fundo na intenção de definir o que seja a fotografia no cinema. E quando a gente pensa que a definição finalmente vai se cristalizar, aí vêm as diferenças de estilo e de postura para restituir a complexidade. Luz, quadro, movimento: a fotografia é só isso – e ao mesmo tempo é isso tudo.



Cada fotógrafo aparece falando de sua formação e influências, comentando cenas de seus trabalhos e da incumbência que acabaram de receber. Lá estão eles também no set comum a todos, preparando sua versão da cena. Uma mulher sai do banho, serve-se uma dose de uísque, encontra uma foto rasgada e pressente a chegada de um homem, que a beija. Parece exercício colegial, mas funciona como mera página em branco para cada profissional imprimir sua marca.



Edgar Moura, o “técnico”, e Dib Lutfi, o “atleta”, escolheram fazer a cena em plano-seqüência (sem cortes). Edgar, porém, usou fumaça e luz sofisticada refletida em espelhos, enquanto Dib filmou a seco com sua célebre câmera no ombro (nunca foi “na mão”). Fernando Duarte, o “simples”, cortou a cena de maneira naturalista. Pedro Farkas, o “espontâneo”, fez o mesmo, embora com uma concepção de luz mais silhuetada. Já Walter Carvalho, o “intelectual”, optou por luz de velas, relâmpagos e desfoques, fragmentando a cena a ponto de eliminar seu aspecto cafona, ainda que ao preço de fazer os atores quase desaparecerem. Foi o único aplaudido na sessão de gala do Odeon. O último a entrar em cena é Mário Carneiro, o “esteta”, falecido há um mês. Sua cena, como de praxe, é sensual e plástica, tirando partido da ambientação noturna.



Cristina Leal me contou que Walter e Edgar foram os que mais se envolveram com a edição e finalização de suas respectivas seqüências. A intervenção de Walter, particularmente, reflete o apetite de um cineasta completo, dotado de olho crítico para o roteiro que recebe.



O acerto do filme vai além de mostrar esses talentos em ação e permitir esses paralelos. O conjunto dos depoimentos mostra a diversidade de caminhos na gestação de diretores de fotografia e compõe uma antologia de testemunhos sobre o ofício. A edição criteriosa de Marcelo Moraes e Luiz Guimarães de Castro cria um belo amálgama de ação e reflexão.



Por fim, cabe ressaltar a seleção de trechos de filmes que ilustram os depoimentos. Mais do que todo o resto, são esses deslumbrantes fragmentos o melhor elogio à fotografia no cinema brasileiro.



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ILUMINADOS

Brasil, 2007

Direção:
CRISTINA LEAL

Roteiro: CRISTINA LEAL, REINALD PINHEIRO

Fotografia: ANTONIO LUÍS MENDES, EDGAR MOURA, FERNANDO DUARTE, WALTER CARVALHO, PEDRO FARKAS, DIB LUTFI, MÁRIO CARNEIRO

Edição: MARCELO MORAES, LUIZGUIMARÃES DE CASTRO

Produção: AÍDA MARQUES

Música: MARCOS SOUZA

Elenco: ÂNGELA REBELLO, ROBERTO BOMTEMPO

Duração: 100 minutos

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