Críticas


FESTIVAL DO RIO 2008: GONZO: UM DELÍRIO AMERICANO

De: ALEX GIBNEY
10.10.2008
Por Carlos Alberto Mattos
ESCREVENDO E VIVENDO FORA DAS MARGENS

Hunter S. Thompson encarnou um coquetel de transgressões difícil de comparar. Viveu com os Hell’s Angels nos anos 1960. Enveredou pelas drogas pesadas e o álcool oceânico. Foi candidato a xerife com a plataforma de liberar a maconha em Aspen. Instigou a desobediência civil e elegeu Nixon seu inimigo n° 1 no início dos anos 1970. Chegou a manter 22 armas de fogo carregadas dentro de casa, entre as quais a Magnun 44 com que estourou os próprios miolos em 2005, aos 67 anos de idade.



Mas o que garantiu seu lugar na história da cultura de massa foi a criação de um tipo de jornalismo assumidamente parcial e subjetivo, radicalizando o uso da primeira pessoa a ponto de fazer-se personagem principal, por exemplo, de uma reportagem sobre a luta Mohammed Ali-George Frazier – que, por sinal, ele não assistiu. Foi o “gonzo journalism”, como ficou conhecido. Escrever e viver fora das margens era o seu lema.



Uma das proezas de HST envolvia uma referência ao Brasil. Para favorecer George McGovern, seu candidato à indicação dos Democratas em 1972, ele insinuou numa matéria que o concorrente Ed Muskie vivia sob o efeito de uma droga fornecida por um misterioso médico brasileiro, a ibogaína. Alex Gibney conseguiu até uma cena de filme aparentemente brasileiro em que médicos mencionam a tal substância numa sala de cirurgia. Nada escapa à sanha ilustrativa desses docs estadunidenses.



Um bom personagem de documentário pode ser aquele que arrasta outros bons personagens. Para falar de Thompson, desfilam pela tela de Tom Wolfe a Jimmy Carter, do celebérrimo editor da Rolling Stone Jann Wenner ao parceiro-cartunista Ralph Steadman, de George McGovern ao ator Johnny Depp, amigo e intérprete de Thompson na versão cinematográfica de Medo e Delírio em Las Vegas. Cada um dá apenas pequenos pontos numa tapeçaria de vozes e opiniões que vão montando o retrato multifacetado do escritor. Depp mais empresta sua presença estelar na leitura de trechos de Thompson do que contribui em substância para a tapeçaria.



No mais, este é o “descanso” de Alex Gibney depois de dois filmes tão graves quanto Enron – Os Mais Espertos da Sala e Taxi to the Dark Side, vencedor do último Oscar. Gonzo é uma orgia de recursos de edição, que ora evocam o psicodelismo da fase áurea de Thompson, ora ensinam como valorizar o material de arquivo e torná-lo objeto de entretenimento. Há lugar para imagens sobrepostas, telefonemas “animados”, diálogos espertos com filmes de ficção que personificaram HST e uma trilha musical incansável com Dylan, Stones e muito acid rock’n roll.



Em filigrana, Gibney e vários participantes do filme fazem um paralelo entre a América conservadora e hipócrita que Thompson tanto combateu e o estado atual do país sob Bush. Resta saber se o “professional troublemaker”, um narcisista que acabou refém de sua própria celebridade, pode ser um bom libelo político em hora grave como esta.



SEX (3/10) 16:10 Est Barra Point 2 [BP237]

TER (7/10) 14:15 Estação Botafogo 3 [EB368]

TER (7/10) 21:00 Estação Botafogo 3 [EB371]

QUI (9/10) 21:00 Estação Botafogo 3 [EB383]



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