Críticas


AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG, O

De: BETO BRANT
Com: GUSTAVO MACHADO, MARINA PREVIATO
27.02.2010
Por Daniel Schenker
EXPERIMENTAÇÃO PROMISSORA

Em O Amor Segundo B. Schianberg , Beto Brant dá continuidade ao percurso que enveredou desde Crime Delicado , versão cinematográfica do livro de Sergio Sant’Anna, seu melhor filme. Desta vez reuniu num apartamento uma vídeoartista (Marina Previato, monocórdia) e um ator (Gustavo Machado) que, durante um determinado período, travam uma relação de intimidade, discorrem sobre a fronteira entre ator e personagem e experimentam uma fusão do cinema com as artes plásticas através da mistura de diferentes texturas de imagens.



No que se refere à relação ator/personagem, conversas sobre a busca de um registro de verdade interpretativa sobressaem. “Quando eu tento compor fico meio canastra”, dispara Gustavo Machado, trazendo à tona a tensão entre composições físicas acentuadas, vistas muitas vezes como referetes a uma ultrapassada tradição de virtuosismo interpretativo, e uma vertente pautada pelo apagamento da representação por parte de um ator que não sai de si para fazer um personagem cujas características não lhe dizem respeito.



Este segundo direcionamento pode ser cada vez mais percebido no cinema, especialmente o brasileiro, a julgar pelos resultados obtidos pela coach Fatima Toledo nos últimos anos. Marcas de autenticidade despontam em O Amor Segundo B. Schianberg (a lágrima “estampada” no travesseiro, as unhas descascadas). Mas Beto Brant destaca a referida tensão interpretativa ao entrelaçar a neutralidade de Gustavo e Marina no apartamento com cenas de uma montagem de Navalha na Carne , de Plinio Marcos, na qual o mesmo ator compõe o cafetão Vado, ainda que não segundo os moldes antigos de interpresentação. Há, de qualquer modo, um contraste entre o ator desarmado no apartamento e o caracterizado no teatro, cabendo, claro, questionar em que medida, no primeiro caso, também não há interpretação.



A constatação de Gero Camilo (Veludo, na mesma montagem de Navalha na Carne ) de que “a arte não é maior que a vida” pode suscitar reflexão eventual, mas o fato é que O Amor Segundo B. Schianberg se filia à corrente de trabalhos que amalgama as duas instâncias, sem evoluir muito na reflexão sobre essa conexão arte/vida. No entanto, não faltam ganchos interessantes. Vejamos: o registro de falas decorrentes de uma vivência improvisada evidencia o desejo de lançar questões acerca do reality show nesse mundo contemporâneo e acelerado. E a circunstância do casal em espaço fechado e o aproveitamento do som ambiente trazem à tona o contraste interno/externo, um dos focos do Beto Brant da fase atual. Não se pode deixar de aplaudir a disposição de um cineasta consagrado em investir num projeto ousado como este, surpreendentemente concebido (de início, como série de televisão) sob inspiração de um livro de Marçal Aquino, Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios , autor cuja parceria com Brant rendeu thrillers, como os bem-sucedidos Os Matadores , Ação entre Amigos e O Invasor .



O AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG

Brasil, 2009

Direção: BETO BRANT

Produção: RENATO CIASCA

Edição: JULIO ANDRADE

Fotografia: HELOISA PASSOS

Elenco: GUSTAVO MACHADO, MARINA PREVIATO

Duração: 80 minutos





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