Críticas


CÓPIA FIEL

De: ABBAS KIAROSTAMI
Com: JULIETTE BINOCHE, WILLIAM SHIMELL, JEAN-CLAUDE CARRIÈRE
17.03.2011
Por Patricia Rebello
DA ARTE DE FAZER UMA CÓPIA

Um homem e uma mulher encenam um casal vivendo uma crise no dia do aniversário de 15 anos de casamento para descobrir o que é mais “real”, se a relação original ou a cópia. Essa sinopse com pinta de comédia romântica americana se transforma em ouro de mina nas mãos de Abbas Kiarostami. Cópia Fiel, com Juliette Binoche e William Shimell nos papéis de uma francesa proprietária de uma loja de antiguidades e um escritor inglês que se encontram na Itália durante o lançamento do livro dele, mostra o diretor em ótima forma. Filmando fora do Irã pela primeira vez, tendo por protagonistas uma grande estrela e um barítono, Kiarostami esta à vontade como nunca; talvez, arriscaria dizer que está em seu melhor momento. Já faz um tempo, desde Dez em 2002, que ele vem investindo nos limites entre o documentário e a ficção, o ensaio e o drama, o experimental e o clássico. Mas nunca, em momento algum, esqueceu que cinema quer dizer, acima de qualquer coisa, contar uma boa história. E é porque se dedica cada vez mais a explorar as diferentes possibilidades de fazer isso que já tem lugar garantido na galeria de grandes diretores.



Cópia Fiel é o nome do livro escrito por James Miller, um tipo com ares de Alain Delon que se aventura em uma das discussões mais manjadas no campo das artes, a diferença entre um original e uma cópia. James não é especialista em artes; mais adiante, ele vai comentar que escreveu o livro para se convencer de suas próprias idéias: cópia ou original, o que importa é o que desperta nas pessoas. Escreve o que pensa. E como toda liberdade tem seu preço, James é desafiado a por à prova sua tese. Pelas mãos e os braços-quase-sempre-cruzados de Juliette Binoche, esplêndida e bela no auge dos seus 47 anos, ele é levado a compreender que se existe alguma relação de equivalência entre um original e uma cópia, ela não é uma questão de semelhança, mas de diferença. Escondido no gesto de copiar está um inevitável gesto de criação. É naquilo que surge de imprevisto, de surpreendente e de desconhecido na experiência de copiar que está o valor da cópia. Ou seja, a novidade que a cópia instala – e que, de certa maneira, a transforma em um novo “original”.



Georges Didi-Huberman é um dos mais interessantes historiadores de arte contemporâneo. Segundo ele, antes de nos colocar questões mais tradicionais frente a uma obra (quem fez? o que quer dizer? qual o significado?), deveriamos aceitar os limites intrínsecos do nosso ver, e nos colocar outras questões: que esperamos de uma obra? que tipo de saber ela me permite? que tipo de inquietação produz? Fazer da inquietação conhecimento e da experiência uma história. É no momento em que desloca o lugar da pergunta – não é mais a obra que tem que nos responder, mas nós que temos de nos posicionar em relação a ela – que Didi-Huberman ilumina a fragilidade de um sistema de pensamento assentado sobre uma relação de deduções e certezas. Cópia Fiel está na exata contramão desse regime. E nada mais perfeito para falar da necessária, e saudável, desconstrução de certeza que a partir de um relacionamento entre um homem e uma mulher. A história do filme segue o curso da mise en scene dos personagens, que se reinventam dentro da própria ficção de sua existência cinematográfica. Se arriscam, se dispõe, se põe; revelam o diálogo como uma máquina de produção maquiavélica e descontrolada. Saem transformados ao final da experiência?



Cópia ou original, o que importa é o que desperta nas pessoas.



Mas todo mundo que já foi criança um dia sabe que passar cópia como castigo, sem direito a mudança, nunca ensinou nada a ninguém.



# COPIA FIEL (COPIE CONFORME)

França, Itália, Irã, 2010

Direção: Abbas Kiarostami

Roteiro: Abbas Kiarostami

Fotografia: Luca Bigazzi

Edição: Bahman Kiarostami

Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière

Duração: 106 minutos

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