Críticas


GAINSBOURG, O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES

De: JOANN SFAR
Com: ERIC ELMOSNINO, LAETITIA CASTA, LUCY GORDON
20.07.2011
Por Marcelo Janot
MAIS QUE UM GARANHÃO

Com um intervalo de apenas três anos, cinebiografias sobre dois dos maiores ícones da “chanson” francesa chegaram às telas: Piaf - Um hino ao amor (2007), de Olivier Dahan, e Gainsbourg – O homem que amava as mulheres (2010), de Joann Sfar, um respeitado autor de quadrinhos franceses, que estreia na direção adaptando sua graphic novel Gainsbourg (Hors Champ). Há poucas semelhanças entre ambos. Enquanto Piaf segue uma narrativa bem mais convencional e folhetinesca, Gainsbourg tenta trilhar o caminho da invenção.



O talento de Joann Sfar como quadrinista pode ser observado na abertura, uma animação que recorre ao seu traço delicado e marcante, embalada pelo som da Valse de Melody, uma das belas composições de Gainsbourg. Para deixar claro que se trata de uma cinebiografia marcada por fortes tintas de fantasia, há resquícios de quadrinhos por todo o filme. Durante a infância na França sob a ocupação nazista, o jovem Lucien Ginsburg (seu nome de batismo), filho de judeus russos, vê uma caricatura sair de um cartaz de rua e o perseguir na forma de um boneco gigante. Ao mesmo tempo em que o menino revela talento para as letras, para o piano e para a pintura, exibe uma desenvoltura precoce como conquistador, a julgar pela modelo que é convencida a posar nua para ele.



Logo uma elipse nos transportará ao Lucien adulto (interpretado com brilhantismo por Eric Elmosnino, fisicamente quase idêntico a Gainsbourg), que a essa altura já se divide entre a pintura e a vida de pianista em bares. Bastam alguns versos para que, como num passe de mágica, uma jovem recém-chegada à escola de Belas Artes, assistente de Salvador Dalí, se apaixone pelo rapaz de atributos físicos pouco sedutores. E é na cama de Dali que lhe aparece pela primeira vez outro personagem irreal, que assombrará Gainsbourg pelo resto do filme: uma espécie de marionete gigante com seus traços físicos acentuados (nariz e orelhas de abano desproporcionais), que funcionará como um porta-voz maligno de sua consciência.



A partir do momento em que, num rompante de fúria, ele se decide pela carreira musical, o espectador passa a acompanhar , em ordem cronológica, os fatos que marcaram sua vida profissional e conjugal. Do empurrão inicial de Boris Vian ao affair com Brigitte Bardot (em irretocável composição de Laetitia Casta), que resultou na histórica Je T’Aime...Moi Non Plus, os episódios se sucedem em tom quase anedótico e superficial. Se por um lado empresta leveza a uma narrativa que se estende por mais de duas horas, tal opção é um tanto decpcionante para quem deseja entender porque Serge Gainsbourg foi uma figura importantíssima na cena musical francesa. Sua viagem à Jamaica em busca de novos caminhos sonoros, que resultou na demolidora Marseillaise em ritmo de reggae, ou o seminal álbum Histoire de Melody Nelson, ficam descontextualizados sem a mesma atenção que o casamento amoroso e musical com Jane Birkin (último papel de Lucy Gordon, que se suicidou antes do filme ficar pronto).



Por vezes tem-se a impressão de que faltou ao diretor e roteirista Joann Sfar talento e confiança para alçar vôos mais ambiciosos rumo a um cinema de poesia que contemplasse as mil e uma facetas artísticas de Serge Gainsbourg, como Todd Haynes conseguiu em relação a Bob Dylan no brilhante Não Estou Lá. Nos créditos finais, Sfar deixa um recado: “Amo demais Serge Gainsbourg para trazê-lo à realidade. Não são suas verdades que me interessam, mas sim suas mentiras”. Tal mensagem, ao mesmo tempo em que soa como mea culpa por ter pegado leve com a faceta auto-destrutiva de Gainsbourg, revela sua incompetência para , mesmo sob a inspiração de todo o amor que diz sentir pelo personagem, não ter feito de suas doces mentiras um passaporte para apresentar ao público mais do que o irresistível garanhão e o músico doidão.



# GAINSBOURG, O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (Gainsbourg, Vie heroique)

França 2010

Direção e Roteiro: JOANN SFAR

Elenco: ERIC ELMOSNINO, LAETITIA CASTA, LUCY GORDON

Duração: 130 min.

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