Críticas


CONTÁGIO

De: STEVEN SODERBERGH
Com: MATT DAMON, JUDE LAW, GWYNETH PALTROW, KATE WINSLET, MARION COTILLARD
27.10.2011
Por Nelson Hoineff
O PLANETA DOS HOMENS

O rigor científico é certamente um parâmetro de avaliação de filmes de ficção-científica ou catástrofes. É por essa ótica que trabalhos como 2001 – uma odisséia no espaço atingem o patamar de obras essenciais. E ainda assim, o viés romântico, ficcional, lúdico de filmes sobre a destruição em massa podem se tornar hegemônicos sobre a verossimilhança. Mesmo nos anos 30, ninguém estaria muito propenso a acreditar que um gorila pudesse escalar o Empire State Building e se apaixonar por uma bela mulher.



Desde que apareceu no Festival de Veneza, em setembro deste ano, muito se tem dito sobre o rigor científico de Contágio, um filme sobre um vírus que rapidamente se espalha por todo o planeta. O diretor, Steven Soderbergh, teve, ele mesmo, um crescimento viral. Desde que apareceu para o grande público com o instigante sexo, mentiras e videotape, em 1989, Soderbergh não parou mais de se expandir – e de filmar. De 2007 – quando fez Treze Homens e um Segredo – para cá, apresenta dois filmes por ano, o que é quase sem paralelo. Alguns desses filmes são tão bons que acabam não sendo convenientemente percebidos – caso típico de O Desinformante, um de seus filmes de 2009 (de lá para cá fez mais quatro).



Soderbergh raramente se repete. É difícil identificar sua assinatura porque sua face é sempre diferente (em O Desinformante, por exemplo, é mais fácil encontrar a assinatura dos irmãos Coen). Fotografa a maioria de seus filmes, sob o pseudônimo de Peter Andrews. E, como produtor executivo, pela sua mão passam alguns dos mais intelectualmente sedutores filmes recentes de Hollywood, como Confissões de uma mente perigosa, ou Boa noite e boa sorte, ambos dirigidos por George Clooney.



Entre as muitas parcerias de Clooney com Soderbergh está justamente a versão dirigida por este e interpretada por aquele para o clássico de ficção científica Solaris(2002) Soderbergh pode ser ousado a ponto de refilmar Tarkovsky, estranho fazendo filmes como Bubble - Uma Nova Experiência(2005) e brilhantemente convencional em obras como Erin Brockovich.



Contágio tem um pouco daquela ousadia mas também deste convencionalismo. Seu foco não é sobre o contágio em si, mas sobre a reação da população a ele. É quando o filme se torna mais atraente para o público – mas aparentemente menos para o diretor. Ele narra os fatos dia a dia, desde os primeiros sintomas da existência do vírus até o apocalipse que chega em poucas semanas, mas nessa trajetória Soderbergh é mais lento que seu vírus, portanto mais desinteressante. É difícil trafegar originalmente sobre essa questão. A opção do diretor pelo distanciamento não é tão bem sucedida. Soderbergh expõe perigosamente uma frieza tão estudada quanto incômoda; foge do melodrama convencional, mas com isso faz seu filme resvalar por uma leitura de texto, com os mesmos personagens que compõem todos os dramas dessa categoria – o homem comum, o cientista visionário, a pessoa do bem tornada vítima – e toques de sensacionalismo com requintes de terror, especialmente nas mesas de autópsia.



Talvez com um fundamento científico acima da média, Contágio acaba dizendo o mesmo que tantos filmes recentes sobre o mesmo tema. Falta-lhe não apenas emoção, mas sobretudo a singularidade, a invenção e o charme que estão presentes em tantos dos filmes do autor. No gênero, fico com Planeta dos Macacos- A Origem.

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