Críticas


PELE QUE HABITO, A

De: PEDRO ALMODÓVAR
Com: ANTOPNI BANDERAS, MARISA PAREDES, ELENA ANAYA, JAN CORNET
17.11.2011
Por Patricia Rebello
O ENCANTADOR DE CARANGUEJEIRAS

O novo filme de Pedro Almodóvar, A Pele que Habito, responde a uma pergunta que existe em cada um dos filmes do diretor: sim, todos os personagens de Almodóvar habitam uma espécie de “segunda pele” e sim, Almodóvar é um dos raros diretores que conseguem falar da experiência da alteridade sem o ranço existencial psicanalítico ou a nova sociologia trans-globalizada. E, sem cair na armadilha de um ou outro, consegue realizar o que ambos levam anos para produzir: a curiosidade pelo diferente, e o prazer da descoberta de novas formas de subjetividade.



A Pele que Habito, baseado no romance Mygale, do escritor francês Thierry Jonquet, conta a história do Dr. Robert Legard (Antonio Banderas), que, depois da morte da esposa e da filha, mergulha no desenvolvimento de uma pele artificial sensível a todo toque e resistente a qualquer agressão. Robert divide a bela mansão El Cigarral com a assistente Marília (Marisa Paredes) e com uma misteriosa e bela jovem metida em um macacão cor da pele, Vera (Elena Anaya). A história vai sendo montada aos poucos, aos retalhos, com muito corte e costura, acidentes de carro, assassinatos, acessos de ciúme, raiva, lágrimas, desaparecimentos e sangue, naquele tom vermelho-Almodóvar fundamental.



Mygale, título original do romance de Jonquet publicado em 1984, é um tipo de aranha caranguejeira que existe no sul da Europa. Ela é solitária, errante e quase totalmente inofensiva ao homem: sua pièce de resistance são os grossos pelos, que produzem forte irritação na pele. A pele. A nossa superfície de contato com o mundo, aquilo que dá os limites entre interno e externo, entre eu e o outro, o tecido do corpo humano que nos contém e que previne que transbordemos. O filme de Almodóvar se desenvolve em torno da utópica proposta de invenção de uma superfície perfeita. Mas mesmo a superfície mais perfeita não segue imune e resiste à história que lhe atravessa. Ao contrário, a própria pele se torna um gesto de resistência. A Pele que Habito, e também a que eu e você habitamos, é uma pele que tem sua própria história.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário