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O EXÍLIO NA PELE

07.07.2003
Por Carlos Alberto Mattos
O EXÍLIO NA PELE

Existem filmes que parecem fadados a permanecer numa espécie de isolamento, exilados em sessões de mostras e festivais. Um magnífico documentário brasileiro está agora correndo esse risco. O tema é difícil: as memórias de um grupo de moradores remanescentes de um hospital para leprosos no interior de São Paulo. Se até a palavra “lepra” foi banida do convívio social (substituída pelo termo mais científico hanseníase), o assunto não parece dos mais convidativos para uma sessão de cinema.



O que a diretora Andrea Pasquini logrou, em Os Melhores Anos de Nossas Vidas, foi o milagre de nos abrir uma fresta para esse mundo de exilados e, com sensibilidade extrema, transformar nossa repulsa em interesse humano legítimo. O filme ganhou uma menção honrosa no último festival É Tudo Verdade e acaba de vencer a IV Mostra VideoSaúde, promovida pela Fundação Oswaldo Cruz. Você não pode perder a chance de vê-lo, em vídeo, na Mostra do Audiovisual Paulista (julho, em SP), na mostra Assim Vivemos (CCBB-Rio, agosto) ou na Jornada Internacional de Cinema da Bahia (Salvador, setembro). Ou, melhor ainda, torcer para que Andrea consiga transferir suas comoventes imagens para a tela grande e lançá-las nos cinemas.



O Brasil só perde para a Índia em número de portadores de hanseníase. A enfermidade tem baixo índice de contágio e hoje pode ser tratada em casa, com remédios perfeitamente acessíveis. Essas informações chegam no letreiro final do filme, desmistificando uma longeva crença na maldição da doença, que costumava ser vista como um “castigo dos céus”. As memórias recolhidas no Hospital de Santo Ângelo, em Moji das Cruzes (SP), falam de um tempo em que os doentes eram caçados como bichos, separados definitivamente de seus entes queridos e condenados para sempre a um isolamento sem remissão. Muitos entraram no hospital ainda crianças, sabendo que só sairiam dali depois de mortos.



Seriam apenas fantasmas de uma época de intolerância se o documentário não resgatasse suas lembranças afetivas, seu persistente apego à vida e a doce aceitação que os fez encarar a longa quarentena como, afinal, os melhores anos de suas vidas. O regime teve períodos de verdadeiro campo de concentração, a ponto de inspirar uma revolução armada entre os internos. A sobrevivência das emoções se deu através de namoros platônicos, bailes de fim de semana e sessões de cinema num imenso auditório de 1000 lugares. Andrea Pasquini desfia tema após tema num roteiro primoroso, que evolui ao ritmo da voz de seus personagens.



Os depoimentos se sucedem numa narrativa suave, intercalados por vinhetas impressionistas que identificam os ambientes e passam informações históricas bastante sintéticas. Não há closes de corpos mutilados nem qualquer sinal de exploração do sofrimento. Tampouco há nada da ansiedade e da fragmentação que tanto caracterizam o documentário interativo brasileiro contemporâneo. Ao respeitar o tempo próprio das pessoas, Andrea restaura a dignidade delas, revela personalidades individuais que o abandono mais radical não foi capaz de apagar.



Várias gerações desfilam diante das câmeras, mostrando, por um lado, a evolução da mentalidade relativa à doença e, por outro, a transformação do hospital de casa de horrores em refúgio bucólico, que muitos, já podendo, não mais desejam deixar. Mesmo porque o exílio social, a partir da própria pele, os desaparelhou para o mundo exterior.



Por mais belas que sejam a fotografia e a trilha sonora, Os Melhores Anos de Nossas Vidas jamais será motivo de entretenimento. É um filme triste e terno, que traz para perto de nós um mundo remoto e quase impensável. Comovidos diante daquelas histórias, reconhecemos a humanidade num limite e ganhamos uma sólida lição de amor à vida.



OS MELHORES ANOS DE NOSSAS VIDAS

Brasil, 2003

Direção: Andrea Pasquini

Produção: Andrea Pasquini e Rui Pires / Gullane Filmes

Roteiro: Andrea Pasquini e Marcílio Godoi

Fotografia: Hélcio “Alemão” Nagamine

Montagem: André Finotti

Edição de som: Adriano Kakazu

Música: Ruriá Duprat e Eduardo Agni

Duração: 65 minutos

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