Críticas


ACIMA DAS NUVENS

De: OLIVIER ASSAYAS
Com: JULIETTE BINOCHE, KRISTEN STEWART, CHLOË GRACE MORETZ, ANGELA WINKLER
08.01.2015
Por Luiz Fernando Gallego
Como nos melhores filmes do diretor, o tema é a inexorabilidade do tempo que passa, desenvolvido de modo plástico e inteligente.

Quinze anos depois de Olivier Assayas ter escrito para Juliette Binoche o roteiro do subestimado Alice e Martin (dirigido por André Techiné), e de ter tido a atriz em pequena participação no que até agora foi o melhor filme que ele mesmo dirigiu, Horas de Verão (2008), foi a partir de uma sugestão de Juliette que Assayas escreveu The Clouds of Sils Maria, aqui intitulado Acima das Nuvens.

A ideia básica era tão simples quanto instigante: uma atriz madura recebe a proposta de estar em nova encenação do mesmo texto teatral que deslanchou sua carreira há 25 anos, agora não mais no papel de uma jovem personagem de 18 anos (‘Sigrid’), mas no da mulher mais velha que se apaixona pela jovem (‘Helena’) e que terá sua vida destruída por esta paixão.

Como em Horas de Verão, o tema central de Assayas é o tempo. Não necessariamente ou apenas no envelhecimento da atriz consagrada – o que obviamente não deixa de estar presente (com ecos longínquos de All about Eve [A Malvada], de Mankiewicz, 1950), mas no inexorável da passagem do tempo em si mesmo, e que, naturalmente também atingiu o autor da peça original que vai ser reencenada, acrescentando-se um piscar de olhos sobre as mudanças (ou não) no comportamento das estrelinhas hollywoodianas mais jovens, e aludindo ainda ao cinema que nasceu silencioso e em preto-e-branco e deixou de sê-lo há tantos anos... Em meio a isso tudo, a natureza de certas regiões pode estar absolutamente preservada, como na localidade suíça que dá nome original ao filme, "Sills Maria", onde Nietzsche escreveu "Zaratustra" e onde, eventualmente, um desfiladeiro entre os lagos italianos e os suíços proporciona o fenômeno chamado (em inglês) de “Maloja Snake”, uma formação de nuvens que, ao emergir do lado suíço do desfiladeiro, pode lembrar a forma de uma serpente, o que, quando se dá, prenuncia severas mudanças climáticas.

Uma característica dos melhores roteiros de Assayas é a de não ficar apenas ou tão focado no que diz respeito diretamente ao seu tema central, permitindo que cenas “sem importância” (direta ou evidente) para o desenvolvimento da trama principal surjam como na vida, no dia-a-dia vivido fora dos roteiros, peças, filmes, romances etc. É assim que momentos fascinantes do filme se passam no relacionamento cotidiano da atriz 'Maria Enders', vivida por Binoche, com sua assistente ‘Valentine’ (em surpreendente interpretação de Kristen Stewart). Na verdade, essas muitas passagens fazem alusão ao conflito de 'Maria' em relação ao papel de ‘Helena’, como se a personagem 'Sigrid'(que vai ser interpretada por uma jovem atriz de nome 'Jo-Anne Ellis', por sua vez interpretada por Chloë Grace Moretz) estivesse sendo apresentada em dupla aparição: como ‘Valentine’ e como ‘Jo-Anne’. O jogo de espelhos entre a situação da peça (que se chama exatamente "Maloja Snake") duplicada - ou triplicada - nas relações atuais de 'Maria' e 'Valentine" e de 'Maria' e 'Jo-Anne' proporcionam ótimas oportunidades às atrizes - com o habitual destaque para Juliette Binoche e seu semblante modulável e expressivo.

Dito assim, pode parecer tão complicado como se o filme fosse uma nova versão de Persona, a sempre perturbadora obra-prima de Ingmar Bergman. Mas se também pode haver ecos igualmente longínquos de Persona no isolamento de Maria e Valentine nas paisagens dos montes suíços onde ela vai repassar o texto da peça, o que pode ser algo perturbador no filme de Assayas não é um enigmático onirismo bergmaniano, mas sua aparente e enganadora “banalidade” nas tergiversações do enredo. Tal como na abertura que se passa em um trem quando Maria vai receber um prêmio pelo autor da peça que a lançou ao estrelato há mais de duas décadas e que agora vive recluso. Um ator envelhecido e desafeto de Maria também vai estar presente na premiação, sendo que esse episódio, posteriormente abandonado, surge como pista (falsa – ou talvez não) do que trata de fato Acima das Nuvens : o tempo e a relação atual que teremos com nosso passado - tema que fez de Horas de Verão a jóia cinematográfica que é, agora pareada - ou mesmo suplantada - pela mais nova realização de Assayas.

A narrativa visual não se detém apenas no aspecto plástico das paisagens - acachapantes, mas jamais utilizadas como mero enfeite turístico, e sim como elemento integrado aos diálogos e situações vividas pelas personagens, seja na predominante relação da atriz com sua assistente, seja nos momentos em que ela encontra ‘Rosa’ (Angela Winkler, atriz de O Tambor e de A Honra perdida de Katharina Blum, ambos de Volker Schlondorff), mulher do escritor da peça em torno da qual gira o enredo do filme.

O enganoso despojamento da mise-en-scène de Assayas também se faz presente na utilização de músicas bastante conhecidas, usadas e abusadas, como “Ombra mai fu” (conhecida também como o “ Largo de ‘Xerxes’ ”, ópera de Handel) e o ‘Cânon’ de Pachebel - que, aqui, surgem com surpreendente frescor, já que incluídos adequadamente na trilha sonora.

Marcante também é a utilização de um trecho do filme mudo, de 1924, Das Wolkenphänomen von Maloja que é visto em seu preto-e-branco original antes de outro momento, quando o mesmo fenômeno da “serpente” de nuvens será visto na tela larga e em cores. O roteiro não resiste à menção de que o antigo filme foi feito “há quase cem anos”. Sempre o tempo, parte integrante do que são a música e o cinema, as mais “temporais” das artes quanto à sua exibição, sendo que o cinema, a imagem em movimento, ainda é o engenho mais próximo do que o ser humano já conseguiu conceber como “máquina do tempo”: se não para o futuro, para o registro e preservação do passado. Uma breve passagem ainda vai incluir um jovem que vai dirigir seu primeiro filme e que quer 'Maria' no elenco de seu projeto, cabendo a discussão se ele a quer como ela é ou como ficou eternizada sua "persona" cinematográfica em filmes antigos. É mais uma discussão em aberto que Assayas propõe ao espectador: como fica nossa auto-imagem mental ao longo do tempo que passa?

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