Críticas


IDA

De: PAWEL PAWLIKOWSKI
Com: AGATA KULESZA, AGATA TRZEBUCHOWSKA, DAWID OGRODNIK
25.12.2014
Por João de Oliveira
Um dos grandes filmes do ano.

Após quase quarenta anos de peregrinação pelo mundo, passados basicamente entre a Inglaterra, a França, a Alemanha e a Itália, o cineasta Pawel Pawlikowski retorna a seu país natal para realizar seu primeiro filme polonês. Desde seus primeiros documentários para a BBC, ele se interessa pela vida dos grandes personagens do judaísmo como uma maneira de descobrir a sua própria história, sua identidade. Em seu primeiro filme, ele se interessara pela vida do mítico escritor russo Venedikt Erofeïev que, como o próprio cineasta, manteve uma vida errante. Em IDA, ao narrar a história da jovem noviça que, semanas antes de emitir seus votos, descobre ser judia, Pawlikowski mergulha na busca de identidade que caracteriza a vida de povos errantes e aproveita para traçar um pequeno panorama da relação complicada que existia entre os judeus e o resto da população polonesa (e do leste europeu como um todo) antes da guerra.

E o primeiro plano do filme, que mostra a personagem principal restaurando uma imagem do Cristo, não poderia ser mais emblemático em um filme sobre a busca de identidade.

Ao visitar uma tia, de quem ela sempre ignorou a existência, a jovem Anna descobre que na realidade se chama Ida, que é judia, e que seus pais foram assassinados durante a guerra. Tudo isso é dito de chofre, com indiferença e sarcasmo por uma tia que aparenta ser fria e distante. Passado o choque inicial, as duas partem juntas para o interior da Polônia em busca da verdade sobre a morte e o lugar de sepultamento de seus familiares.

Ao visitar a cidade onde viviam seus parentes antes da guerra, sobrinha e tia deparam-se com uma conivente e negacionista "lei do silêncio" por parte de uma população que se recusa a encarar os traumas do passado. Ninguém conhece, ninguém viu, ninguém sabe da existência dos Lebenstein, mesmo que o filme se passe no início dos anos 60 (o que não fica muito claro - talvez para melhor acentuar a imutabilidade da mentalidade daquelas pessoas), poucos anos apenas após o fim da guerra. A viagem serve para aproximar essas duas personalidades completamente antagônicas, como observa o jovem saxofonista de jazz que se apaixona por Ida. Se ambas, por razões distintas, parecem impermeáveis às emoções, a sobrinha lembra, em sua pureza, uma personagem bressoniana, enquanto a tia parece ser a mistura equilibrada de uma personagem ibseniana, em razão do peso e da importância que o passado parece ter em sua vida, com uma personagem bukowskiniana, em razão dos aspectos trágicos e autodestrutivos e da maneira como ela procura no álcool e nas relações furtivas um antídoto ao seu tédio cotidiano.

Enquanto para a tia o passado é uma prisão do qual ela tenta fugir, para a sobrinha ele é revelação e autoconhecimento. Enquanto esta última encontra na fé um abrigo protetor, a tia, que conheceu o fervor dogmático em sua militância comunista, considera qualquer tipo de devoção como irracionalismo e ilusão, e não se conforma com a escolha da sobrinha e tenta, a todo custo, fazer com que ela descubra os prazeres da carne. E a diferença entre essas duas desconhecidas acentua-se com a descoberta da verdade e as consequências diferenciadas que ela possui para cada uma delas.

O filme possui uma estética bastante apurada. O belo preto e branco de sua fotografia é de intensa plasticidade, o que poderia até parecer indecente e incongruente em obra tão sombria. No filme, no entanto, servem para acentuar o ambiente hostil e o clima cinzento e frio do inverno polonês (durante todo o filme vemos apenas uma nesga de sol que surge, ao longe, por trás das nuvens, logo após a descoberta da verdade), além de realçar a atmosfera lúgubre e melancólica de sua intriga.

Os enquadramentos, que revelam o vazio de imensas paisagens, também são maravilhosos e significativos. Lembrando, em alguns momentos, a Paixão de Joana D'Arc, de Carl Theodor Dreyer, os personagens principais aparecem sempre fragmentados e nas bordas dos planos, como se tivessem sido expulsos do centro e vivessem eternamente condenados à marginalidade. Além disso, eles aparecem sempre enquadrados e cerceados por infinitas formas geométricas (particularmente por formas paralelas, verticais e horizontais), que muitas vezes substituem, na arte judáica e islâmica, a representação do humano.

Vale destacar ainda a sofisticada trilha sonora e sua eficaz utilização. Da dramática sinfonia "Júpiter" de Mozart à musica sacra de Bach, passando pelos belos acordes de "Naima", de Coltrane, cada obra possui um significado bastante preciso no filme.

Ao tranformar uma personagem judia em freira, o realizador não apenas aponta para um problema que marcou muitos orfãos judeus da Segunda Guerra, mas também questiona um mito nacionalista e segregacionista dos poloneses, cuja identidade é sempre definida como impreterivelmente associada ao catolicismo. A identidade, para o cineasta, é consequência de uma escolha deliberada e não o fruto de uma imposição institucionalizada.

Misturando enquete policial (não por acaso a tia é uma ex-procuradora comunista) com um road movie, Ida é um dos grandes filmes de 2014.

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Outros comentários
    4084
  • Silvia Helena
    24.03.2015 às 19:10

    Excelente! Percepção impecável, em minha opinião.
  • 4087
  • João de Oliveira
    01.04.2015 às 03:40

    Cara Sílvia Helena, Obrigado pelo comentário generoso e por participar de nosso site. Abraços, João