Críticas


MOSTRA SP 2004: MARIA CHEIA DE GRAÇA

De: JOSHUA MARSTON
Com: CATALINA SANDINO, VIRGINIA ARIZA, JOHANNA ANDREA MORA, WILSON GUERRERO
29.10.2004
Por Ricardo Pereira
DENÚNCIA COM QUALIDADE

O diretor Joshua Marston centra todo o seu filme na personagem

principal, a Maria do título, interpretada por uma brilhante descoberta, Catalina

Sandino (melhor atriz no Festival de Berlim deste ano). Ela agüenta

sobre seus ombros toda a carga de uma fita que narra uma odisséia pessoal,

uma viagem que, além de física, tem muito de iniciática. A esse respeito,

chama atenção a facilidade com que essa decidida e inteligente garota de

17 anos que não suporta os maus-tratos sistemáticos a que é submetida tanto em

seu trabalho (precisamente empacotando rosas, o que não deixa de ser uma

referência ao também colombiano A Vendedora de Rosas, de Victor Gaviria, como em seu âmbito familiar, onde se vê forçada a sustentar a irmã mãe-solteira e desempregada), acaba sendo seviciada pelo tráfico de drogas internacional.



A estrutura dramática do filme é tão simples como eficaz: uma minuciosa

descrição dos passos desta jovem que aceita servir como "mula"

transportando dentro de estômago os papelotes com heroína, no que

não faltarão as advertências do traficante sobre o que acontecerá com a

sua família caso não cumpra sua parte, seguida pela crônica desse calvário

que começa no avião que a leva aos Estados Unidos. Não em vão essas mulheres são, para os traficantes, meros recipientes humanos de uma carga muito mais valiosa.



O grande valor do filme está na contundência da história – um drama real que se repete todos os dias neste primeiro mundo em que tantos aspiram entrar, seja da forma que for. Marston deixa seus atores à vontade para improvisarem, o que, em certas ocasiões rende uma interpretação bastante realista da maior parte do elenco mas, é preciso registrar, nem sempre funciona adequadamente. Ele consegue mostrar uma perspectiva social e quase antropológica de primeira ordem sobre essa realidade colombiana que atrai os mais ambiciosos ou mais desesperados a conseguirem pela via mais perigosa deixar a miséria asfixiante em que se encontram.



O uso da câmera na mão, o formato quase documental da fita, a

mise-en-scène que cerca de forma constante as personagens para conseguir a

cumplicidade do espectador, tudo contribui para contar essa história com a maior verossimilhança possível. E a verdade é que há muitos momentos brilhantes que atingem com sobra este objetivo, por mais que o tom do filme tenha em última estância sido edulcorado, quem sabe, pela necessidade de oferecer um alívio ao espectador entre tanta angústia e dureza. Porém, acima de tudo (inclusive da própria história) se alça o

descomunal trabalho desta debutante colombiana Catalina Sandino, em um

papel que não apenas a obriga a estar permanentemente na tela e a exibir

uma notável variedade de registros de forma solvente, mas que consegue com

seu arrebatador magnetismo e uma enorme força arrastar o espectador em sua

peripécia fazendo com que este se implique até o fundo com ela nesta

viagem.



Maria Cheia de Graça é um trabalho carregado de simbolismos - e não

apenas católicos: veja-se o reencontro de Maria em Manhattan com as rosas

que preparava - que nasce marcado por sua origem: o olhar de um americano

(o diretor Joshua Marston) consciente da realidade que o rodeia e que

descreve de forma poderosa - nesse empenho de oferecer mais luz - um

problema que não por ser conhecido deixa de ser relevante.



As boas intenções da fita contam assim com um veículo fílmico que, pese

algumas discutíveis concessões finais, está no geral à altura da

importância da problemática que denuncia, sem renunciar por isso à

condição de produto cinematográfico de qualidade. O que não deixa de

ser a melhor forma de se esquivar de certos maniqueísmos nesse tipo de

obra de denúncia, tão fácil de descambar para os caminhos do

panfleto.





# MARIA CHEIA DE GRAÇA (Maria Llena Eres de Gracia/Maria Full of Grace)

Colômbia/Estados Unidos, 2004

Direção e roteiro: JOSHUA MARSTON

Elenco: CATALINA SANDINO, VIRGINIA ARIZA, JOHANNA ANDREA MORA, WILSON GUERRERO

Duração: 101 min.

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