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CÂNCER NO CINEMA: TEM CURA?

27.12.2016
Por Diogo Rodrigues
Por que a mortalidade por câncer é muito maior nas telas que na vida real?

Em 2015, nos preparativos para o Outubro Rosa e o Novembro Azul, propus ao meu chefe uma atividade diferente: reuniríamos pacientes com câncer do nosso serviço para assistir e debater um filme, com o objetivo de trazer ânimo e motivação através de uma linguagem lúdica. Ficou ao meu critério escolher o filme e, como estava acontecendo o Festival de Cinema do Rio, fechei a agenda do consultório e em uma tarde assisti dois filmes que tratam de alguma forma do assunto.

O primeiro, "Eu, você e a garota que vai morrer", é uma mistura de "Moonrise kingdon" com "Rebobine por favor" e é até interessante mas, como o título entrega, a menina morre no final, o que não penso que motivaria muito os meus pacientes. O segundo era "Truman", o filme do mês de Ricardo Darin, que conta a história de um ator com câncer de pulmão que para de se tratar e resolve suas pendências afetivas em quatro dias. Até do cachorro que dá nome ao filme ele tem que se despedir, estando pronto para morrer. Não, não me pareceu uma boa idéia.

Comecei então uma busca por filmes ou séries que envolvessem o tema, e percebi um padrão: o estereótipo da jornada de um personagem com câncer envolve um diagnóstico, muito sofrimento, resolução dos problemas pessoais e afetivos e com a morte, seja ela explícita ou implícita, o espectador sai da sala sabendo que o fim foi o mesmo.

Em muitos casos, o câncer é o grande vilão do filme. É o artifício narrativo que vai guiar todos em uma jornada de crescimento e reconciliação, mas impedir que fiquem juntos no final. É o caso de Meryl Streep em “Um amor verdadeiro” (1998), Susan Sarandon em “Lado a lado” (1998), Winona Rider em “Outono em Nova York” (2000), Emma Thompson em “Uma Lição de vida” (2001), Mandy Moore em “Um amor para recorder” (2002), Morgan Freeman e Jack Nicholson em “Antes de Partir” (2007), Tony Collete em “Já estou com saudades” (2015).

Outras vezes, o diagnóstico de uma doença maligna é a justificativa para levar os personagens pelos caminhos mais esdrúxulos e impensáveis. Assim, James Woods não hesitará em matar o presidente em "Ataque à Casa Branca". Clint Eastwood em “Gran Torino” e o Prof. Bromm em “Hellboy” farão um sacrifício final , enquanto o Slade Wilson de Ryan Reynolds aceitará participar de um experimento maluco em "Deadpool".

E é claro, "A culpa é das estrelas". Me desculpe Ansel Engort, mas você não pode declarar que está curado do câncer em um filme como este. É como sair para conferir se o Jason ainda está rondando a cabana: você VAI matar o seu personagem.

Dá pra perceber o problema? Nunca vemos boas histórias em que um paciente com câncer aparece, lida com o problema e segue com a sua vida, como acontece na imensa maioria das vezes na vida real. Na cabeça dos roteiristas, mesmo os melhores deles, não existe arquétipo para um personagem com câncer, somente o estereótipo de "alguém que vai morrer".

Agora dê uma olhada nos vencedores do Oscar de 2015 para melhor ator e atriz: Juliane Moore, é diagnosticada com a doença de Alzheimer em "Still Alice", e Eddie Redmayne mostra luta de Stephen Hawking contra esclerose lateral amiotrófica em "A teoria de tudo”. Duas doenças dramáticas e muitas vezes letais. Duas belas histórias. Ninguém morre no final.

Há algumas exceções, é claro: Em “50/50” (2011), o personagem de Joseph Gordon Lewitt não morre no final. O candidato ao prêmio da Academia Sylvester Stallone também sobrevive a um linfoma não-Hodgkin em “Creed” (2015). Talvez essas duas sejam as exceções que confirmam a regra: Seth Rogen, ator e produtor de “50/50” declarou no making of que o filme foi inspirado em um amigo que tinha câncer, passou pelo tratamento e sobreviveu, baseado então, em uma história real.

Sobre Rocky ... bem, é dito em “Rocky Balboa” que sua esposa Adrian morreu de câncer, e eu tendo a acreditar que a idéia era manter o personagem vivo, na esperança de iniciar uma nova franquia.

Cada herói tem a sua jornada de acordo com o que vai na cabeça do roteirista. O problema é que está parecendo que os roteiristas não conseguem pensar nesta doença como não sendo terminal. Imagina se nos filmes de guerra todos os soldados morressem antes do fim. Não seria chato sempre saber o final da história? E o pior: o que diria se algum parente ou amigo se alistasse e fosse para a guerra: Iria automaticamente chorar e se despedir porque nesse emprego a morte é certa?

E é aí que chego ao centro do meu ponto: o mal implícito que esta falta de percepção pode estar fazendo a milhões de pacientes que tem ou tiveram câncer e estão tentando tocar a vida. Quando entram no cinema, esperando ver uma história que os retire por um par de horas da dura realidade, como eles se sentem, ao ver essa avalanche de desfechos negativos? Por exemplo: uma mulher recém diagnosticada resolve passar um tempo com o filho e vai assistir "Guardiões da Galáxia". Logo na primeira cena o protagonista está perdendo a mãe, que está magra, acamada e sem cabelo... qual será a causa da morte? É uma cena bem dramática em que, no final, o filho literalmente vai para espaço. Será que essa mulher consegue prestar atenção em mais alguma coisa, ou vai passar o resto da exibição temendo por sua morte, e que o filho seja sequestrado por alienígenas?

Em 2016, tivemos um filme nacional para participar desta lista: 'Meu amigo hindu”, de Hector Babenco. Trata-se da história real do diretor que teve um linfoma, viu a morte (na vida real e no drama) de perto, e desejou ficar vivo para fazer um último filme. Diego Fairman, o personagem principal até termina vivo, mas curiosamente Babenco faleceu poucos meses depois do filme ser lançado.

Enfim, espero que esta reflexão possa levar os que definem estes enredos a repensarem o tipo de entretenimento que estão oferecendo e, assim, possam encorajar os pacientes através da sua arte a continuarem lutando e a seguirem em frente. Também nós, que a assistimos e julgamos o que faz um filme ser "bom", devemos atentar e cobrar essa percepção. Talvez precisemos de algo como o Teste de Bechdel para ajudar a identificar este vício narrativo e assim corrigí-lo. Se nem sempre o cowboy mau usa chapéu preto, quem está com câncer pode se recuperar, e ter um final feliz.

DIOGO RODRIGUES é médico oncologista

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Outros comentários
    4460
  • Lília Portela
    28.12.2016 às 08:03

    Sensível e tocante todo o texto e a dura realidade de saber que o que vemos NÃO É A REALIDADE!!! Às vezes temos que encarar a sétima arte como ela deveria ser: Arte e diversão!! Parabéns pela lucidez!!!
  • 4467
  • Elena Lerner
    31.12.2016 às 08:40

    Gostei muito do seu texto, preciosa sua observação! De fato, o cinema apresenta o tema do câncer na maior parte das vezes com esse final, o que reforça o estigma de sentença de morte da doença. Achei que você citaria entre as parciais exceções o filme Aquarius. A personagem de Sonia Braga sobrevive ao câncer de mama... Por outro lado a metáfora dos cupins associada ao câncer que se espalha e mata é assustadora! Sou psicanalista e trabalho há muitos anos numa clínica oncológica. É um grande desafio desfazer essa associação tão imediata entre câncer e morte! Desde 1996 coordeno um grupo chamado Conte Conosco. Não fazemos filmes, mas tentamos oferecer uma oportunidade de compartilhar experiências e ouvir testemunhos das mais diversas histórias de invenções singulares a partir de um diagnóstico de câncer . Quando criamos o grupo, essa foi a nossa principal motivação: é muito importante que se divulguem histórias de pessoas que sobrevivem ao câncer e , mais do que isso, mesmo aquelas que não têm a cura como perspectiva, que não se sintam mortas antecipadamente. Somos todos portadores dessa "doença "- morte, e quanta capacidade de desfrutar a vida pode se extrair dessa consciência de que não se tem todo o tempo do mundo!
  • 4478
  • Diogo Rodrigues
    04.01.2017 às 14:22

    Lília e Elena, obrigado pelos comentários. Ainda não assisti "Aquarius", mas já está na lista de prioridades. Curiosamente, uma hora após este texto ser publicado, fui assistir "A chegada", com Amy Adams, Jeremy Renner e Forest Whitaker. Mais um filme que entra para a lista: um personagem falece (logo no início) acamado e sem cabelo, de uma "doença muito rara". Qual será? Elena, excelente o seu projeto! Recomendo assistirem "Uma chance para viver", (Living Proof, Dan Ireland, 2008). É um filme/documentário feito para TV em parceria com a Roche, no contexto do lançamento de uma droga nova para o tratamento do câncer de mama chamada Herceptin. A mensagem nesse caso é bastante positiva e bem-humorada, explicando como funciona a pesquisa contra o câncer.