Críticas

ManchesterbytheSea_Trailer

MANCHESTER À BEIRA MAR

De: KENNETH LONERGAN
Com: CASEY AFFLECK, LUCAS HEDGES, KYLE CHANDLER, MICHELLE WILLIAMS
19.01.2017
Por Hamilton Rosa Jr.
Em Casey Affleck o diretor encontrou o ator ideal para inscrever na tela a dor do ser anônimo mergulhado na solidão e no luto.

É próprio dos grandes atores serem capazes de preservar-se da influência negativa dos holofotes. Casey Affleck manteve essa discrição em sua carreira até não poder mais. Já tinha brilhado em O Assassinato de Jesse James, mas do mesmo modo que o filme salientou seu talento, inclusive com uma indicação para o Oscar, deixou-o temeroso de aceitar uma nova condição em Hollywood, e assim Affleck rapidamente voltou à penumbra. Manchester à Beira Mar (Manchester by the Sea, 2016) arranca o ator do segundo plano mais uma vez. E com maior contundência.

Não é por acaso que o filme está em quase todas as listas dos melhores do ano. É um mergulho no realismo das relações, filmadas cruamente e sem pudor. Não tem nada a ver com o sentimentalismo infantil e declamatório, que tantas vezes já vimos no cinema norte-americano. É uma outra coisa: há uma riqueza ilimitada de expressões no ser humano, e a curiosidade de observador do ínfimo drama cotidiano é algo que o diretor e dramaturgo Kenneth Lonergan vem apurando ao longo dos anos.

Com Casey Affleck, Lonergan encontrou o ator ideal para inscrever na tela a dor do ser anônimo mergulhado na solidão e no luto.

O filme abre com uma charmosa vinheta de dois homens e um menino numa excursão de verão no barco de pesca da família. Os dois são os irmãos Chandler. Joe, o mais velho (Kyle Chandler) pilota o barco; Lee, o mais novo (Affleck), ensina o sobrinho, Patrick, a pescar. É um momento alto astral, mas a cena seguinte revela que essa nau flutua entre o presente e o passado com uma tragédia conectando os dois tempos.

No presente, Lee vive como um zumbi num porão em Boston. De dia, leva um trabalho pesado de zelador num condomínio. É ótimo na execução das tarefas, mas não tem tolerância para lidar com os humores dos condôminos. Nem paciência para entabular uma conversa com uma garota que dele se aproxima, à noite, no bar. Ele se irrita com a moça e deixa bem claro sua condição de ermitão. Sua fiação emocional parece desgastada e parece haver uma pitada de penitência em sua solidão. A forma como Affleck submerge neste personagem tem uma extensão assombrosa. Vai levar uma hora ou mais para descobrirmos o porquê. Mas o ator projeta a gravidade do personagem em todos seus olhares e gestos: as mãos presas nos bolsos, os olhos inquietos, enquanto o álcool o eleva e afasta da Terra.

Então, um telefone toca tirando o homem amortecido da rotina.

A chamada é de um hospital em Manchester: o irmão mais velho, Joe, teve um ataque cardíaco. Enquanto Lee empreende a longa viagem de volta a sua terra natal, Lonergan mantém o filme num ritmo sereno. Definitivamente, ele não é um diretor adepto de sobressaltos ou de firulas visuais, mas a partir daqui, ele cria um emaranhado de sutilezas e um complexo jogo de espaços e interações inusitado. A começar pela habilidade que interliga a trama em flashbacks. Em princípio, as idas e vindas parecem óbvias, mas na verdade, elas estruturam o filme no mesmo estado de levitação do barco no início.

ATENÇÃO: SPOILERS

O irmão de Lee morre antes que ele consiga percorrer o extenso caminho de Boston à costa. E quando ele é colocado em frente ao cadáver, imediatamente, Lonergan se nega a mostrar o morto, levando-nos a um flashback de quando o homem recebia naquele mesmo hospital o diagnóstico de que tinha pouco tempo de vida. O passado e o presente se fundem, sem demora, deixando a estranha sensação de ver uma pessoa viva imediatamente após a sua morte. O "é" e o "foram" no filme são enlaçados e amarrados juntos.

O mérito de Manchester à Beira Mar reside justamente da criação dessa atmosfera oscilante, por vezes, trágica, por vezes, pontilhada de momentos cômicos. Os personagens invariavelmente riem de suas desgraças. Joe é o primeiro a fazer piada com seu estado quando o médico lhe dá a péssima notícia. O sobrinho, então, esquece as diferenças com o tio quando precisa que ele distraia a mãe da namorada para que possa ir até onde deseja no quarto da menina. Algumas cenas parecem saídas de uma comédia ligeira, outras são de uma mordacidade incrível. Num dos momentos mais terríveis, logo depois de um incêndio, enfermeiros tentam carregar numa maca a mulher que perdeu os filhos num incêndio e não conseguem colocá-la na ambulância. As pernas da maca emperram. A trapalhada dura dois segundos, mas é o suficiente para desconcertar de tão patética. Pior de tudo, vemos como um pequeno erro estúpido de um personagem, adquire consequências tão vastas que reduzem a vida de outros a cinzas. A ironia é cáustica aqui.

A cidade do título é devidamente esboçada, tanto em suas cores - nem sempre fica claro onde o cinza do oceano termina e começa o céu do inverno. Para desespero de Lee, ele acaba nomeado como o guardião legal de Patrick (Lucas Hedges), filho de Joe. É o mesmo menino do início na pesca, só que ele cresceu, tem 16 anos, e não tem absolutamente nenhum desejo de se acertar com o tio.

Grande parte da história envolve as duas figuras medindo-se, estudando o outro, tentando chegar a algum lugar. Numa segunda instãncia, ocorre uma outra dificuldade de acerto de Lee. Em seu regresso forçado a Manchester, ele reencontra também a ex-mulher (Michelle Williams). O personagem procura adiar a conversa com ela, mas são tantas as coisas que a mulher tem sufocada para dizer, que quando eles se encontram numa esquina, as emoções jorram numa torrente.

Hollywood gosta de insistir que, ao encontrar uma pessoa especial, seja um forasteiro, alienígena ou amigo, você pode curar ou ser curado de seus males. Ninguém é curado no final de Manchester à Beira Mar.

A inquietação cresce, e Lonergan consegue manter o público sempre no fio instável do desconforto, num equilíbrio entre a aflição e o alívio, com um nó na garganta, no corpo todo, que não se desata nunca. O passado é um novelo que vai acumulando mal-entendidos e equívocos e, de uma forma sempre elegante, jogando com uma espécie de fora de campo do som e das palavras, Lonergan vai nos alertando para o que ficou por dizer. E como numa verdadeira tragédia grega não há redenção possível. Seja como for, o odor é a última memória a partir.

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Outros comentários
    4499
  • Rafael Amaral
    24.01.2017 às 07:50

    O certo é "chegar a algum lugar" e não "chegar há algum lugar".
    • 4504
    • Luiz Fernando Gallego
      31.01.2017 às 08:23

      Corrigido, obrigado.
    4502
  • vera lucia
    30.01.2017 às 20:17

    Ótimo artigo sobre o filme. Acabei de assisti-lo no cinema e, sim, é devastador, mas é, também, pura realidade. É um daqueles filmes que a gente sai atordoada, mas com a certeza de que esse o mundo em que vivemos.
  • 4503
  • Lucia
    30.01.2017 às 23:23

    Foi um dos filmes mais delicados e respeitosos com o ser humano que vi esse ano.Eh um presente como cinema e como lidar simplesmente com uma dor intima e devastadora sem perder o que ha de humano em nos.A critica acima eh perfeita.