Críticas


CHAVES DE CASA, AS

De: GIANNI AMELIO
Com: KIM ROSSI STUART, ANDREA ROSSI, CHARLOTTE RAMPLING
06.01.2006
Por Carlos Alberto Mattos
O FILHO ESTRANGEIRO

Diversas cenas de As Chaves de Casa emocionam sem abrir mão da sobriedade. Uma delas se passa numa estação de metrô, num encontro de Gianni (Kim Rossi Stuart) e Nicole (Charlotte Rampling), ambos pais de crianças portadoras de múltiplas deficiências. Nicole fala de sua dedicação integral aos cuidados com a filha. Inesperadamente, porém, faz uma confissão terrível. Nesse instante, o metrô entra na estação, pontuando o clímax da cena com o ruído do motor. Ela embarca e se vai. Ele fica. O neófito aprendera mais uma lição sobre como ser pai em condições especiais.



A economia dessa cena extraordinária, sua potência emocional a despeito de toda a simplicidade com que é feita, tem sido coisa rara no cinema contemporâneo, que tudo enfatiza e reitera. O próprio cinema de Gianni Amelio, um dos últimos humanistas em atividade no mercado europeu, é uma espécie em risco de extinção. Este é seu primeiro filme desde o magistral Assim é que se Ria, de 1998.



As Chaves de Casa mais homenageia que se inspira no livro Nati Due Volte (Nascido Duas Vezes), de Giuseppe Pontiggia (1934-2003). A dedicatória “a Andrea e Andrea” ilustra bem o singular processo de criação do filme. De um lado está Andrea Pontiggia, filho do escritor e personagem central do livro. De outro, Andrea Rossi, o adolescente que vive Paolo no filme e cuja condição real serviu de base para a elaboração do roteiro. No fim das contas, temos uma história inteiramente ficcional, que não é exatamente a de um, nem de outro.



Na verdade, o filme não explora a questão da deficiência física ou mental, mas centra-se na formação do vínculo de paternidade. O espectador pega o trem literalmente andando. Conhecemos Gianni (não por acaso, o mesmo nome do diretor) e Paolo a bordo de um vagão entre Milão e Berlim. Gianni vê o filho pela primeira vez 15 anos após um parto traumático. O encontro faz parte de um esforço pela reabilitação de Paolo. Deixando para trás um quadro de rejeição e omissão culpada, Gianni passa a viver as hesitações típicas de um pai diante do filho que profundamente desconhece.



Nós também aprendemos sobre os personagens no curso dessa experiência de redescoberta. Nada nos é dado a priori. Nem mesmo ficamos sabendo o diagnóstico preciso de Paolo. O foco está no processo que conduz Gianni através primeiro do constrangimento, depois das tentativas desajeitadas de aproximação, e então do nascimento de uma cumplicidade, do instinto de proteção e de um verdadeiro carinho. Mas, à espreita, sempre, está a consciência da própria fragilidade diante de tamanho e tardio desafio.



Amelio desenha esse trajeto com delicadeza, mas sem subterfúgios. Não há pílulas douradas nem soluções mágicas contra os dilemas e o sofrimento. A complexidade da relação entre pai e filho é preservada do primeiro ao último momento. Nem mesmo Nadine, a mãe experiente que transpira aceitação, pode servir como modelo perfeito de serenidade.



O filme depende essencialmente da dinâmica dos atores. A interação entre Kim Rossi Stuart e Andrea Rossi é comovente no que tem de documental e parcialmente improvisado, deixando entrever um trabalho de filmagem extremamente difícil e bem-sucedido. Charlotte Rampling, por sua vez, faz de Nadine algo mais que mera função dialógica para explicitar os impasses de Gianni.



O deslocamento da ação para Berlim, com uma esticada à Noruega, fornece uma ambientação visual e sonora que é inteiramente constitutiva da proposta dramática. Em vários momentos, o idioma estranho e sua presença obsessiva no ar potencializam o sentimento de alienação das personagens. Gianni tem no filho uma espécie de estrangeiro.



O desenvolvimento sonoro do tema do estranhamento prossegue até os créditos finais, quando se ouve a canção Deus do Fogo e da Justiça. A letra em português é completamente desconexa em relação ao contexto, mas o sentimento da canção e da voz da baiana Virgínia Rodrigues estão em perfeita sintonia com todo o resto. Talvez esteja aí uma chave para o que Gianni Amelio quer dizer com mais esse belo filme sobre laços familiares: quando não se conhece o mundo do outro, a emoção pode ser o caminho mais curto até ele.





# AS CHAVES DE CASA (LE CHIAVI DI CASA)

Itália/França/Alemanha, 2004

Direção: GIANNI AMELIO

Roteiro: GIANNI AMELIO, SANDRO PETRAGLIA, STEFANO RULLI

Fotografia: LUCA BIGAZZI

Montagem: SIMONA PAGGI

Música: FRANCO PIERSANTI

Elenco: KIM ROSSI STUART, ANDREA ROSSI, CHARLOTTE RAMPLING

Duração: 105 minutos

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