Críticas


CLASH

De: MOHAMED DIAB
Com: NELLY KARIM, HANI ADEL, EL SEBAII MOHAMED
05.05.2017
Por Marcelo Janot
Uma poderosa metáfora da polarização beligerante e surda que toma conta de quase todo debate político no mundo hoje

No ano seguinte à renúncia do presidente Hosni Mubarak em decorrência dos protestos populares de 2011, o partido da Irmandade Muçulmana foi eleito para governar o Egito. Em 2013, através de um golpe de estado, os militares tiraram os islamitas do poder. É durante um dia de violentos confrontos entre eleitores do governo deposto e defensores dos militares que se desenrola a ação de “Clash”. Dois jornalistas da Associated Press são detidos e levados para uma van policial. Confundidos com partidários da Irmandade, eles são agredidos com pedras por defensores dos militares, que por sua vez são confundidos com manifestantes pelos policiais e enfurnados na van. Em seguida, os verdadeiros oponentes também são presos e colocados no mesmo veículo, junto com outros civis (incluindo crianças) detidos arbitrariamente.

A câmera mostra o pau comendo lá fora, mas em nenhum momento sai de dentro daquele camburão policial de oito metros quadrados onde se espremem mais de 20 pessoas. Não se trata de mera proeza exibicionista do diretor egípcio Mohamed Diab: ele faz daquele confinamento uma poderosa metáfora da polarização beligerante e surda que toma conta de quase todo debate político no mundo hoje. Tomados pelo ódio, eles aos poucos vão se dando conta de que todos são igualmente vítimas ali dentro, sobretudo do total desrespeito aos direitos humanos por parte do Estado.

Trata-se do segundo longa dirigido por Diab. Se no primeiro, “Cairo 678” (2010), ele abordava corajosamente um tema por muito tempo considerado tabu numa sociedade machista como a egípcia, o assédio sexual, a realização não estava à altura da proposta, com uma direção pouco criativa e um roteiro por vezes excessivamente melodramático.

Seis anos se passaram entre um e outro e é possível vislumbrar um diretor muito mais seguro, que desafia os limites de espaço com boas soluções, como fez o mestre Alfred Hitchcock em “Um Barco e Nove Destinos”. O único senão do roteiro é a tentativa de quebrar a tensão da narrativa com breves momentos de calmaria. Um DJ distribuindo cartões de visita, dois irmãos falando de tratamento de calvície, entre outras trivialidades, soam artificiais, mas não conseguem tirar o brilho deste belo filme.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário