Críticas


CANNES 2022: A IMIGRAÇÃO EM PAUTA

31.05.2022
Por Marcelo Janot
O preconceito sofrido por imigrantes na Europa refletido em quatro filmes

O preconceito sofrido por imigrantes numa Europa em constante ebulição por causa da xenofobia é um tema que vem sendo tratado com frequência no cinema. Pelo menos quatro filmes exibidos em Cannes (três na competição principal) chamaram a atenção pela abordagem oferecida.



TORI ET LOKITA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

“Tori et Lokita”, vencedor do prêmio especial dos 75 anos de Cannes, aborda as dificuldades enfrentadas por um menino (Tori) e uma adolescente (Lokita) que fugiram do Benin e se refugiaram na Bélgica, onde vivem em um abrigo para imigrantes. A história é um prato cheio para o habitual cinema engajado, de preocupação social, dos diretores-roteiristas belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, velhos conhecidos de Cannes, onde já faturaram duas Palmas de Ouro (“Rosetta” e “A Criança”) e prêmios para outros três filmes. A câmera deles como sempre segue de perto os seus personagens, física e psicologicamente, estabelecendo empatia imediata entre o espectador e a carismática dupla vivida pelos estreantes Pablo Schils e Joely Mbundu.

Tori e Lokita se fingem de irmãos, o que facilitaria o processo de legalização de sua situação em solo belga. Enquanto isso, eles trabalham clandestinamente como “aviões” de um chefe de cozinha que trafica drogas, o que permite a Lokita enviar dinheiro para sua mãe na África. É nos detalhes que os Dardenne, que costumam evitar tons melodramáticos, ressaltam a dureza da vida para a dupla, como o assédio sexual do chefe a que Lokita tem que se submeter para ganhar mais uns trocados, e a revelação de que Tori é uma das muitas crianças africanas perseguidas em seus países de origem por serem consideradas feiticeiras.




UN PETIT FRÉRE, de LÉONOR SERRAILLE

A diretora e roteirista Léonor Serraille, que venceu o prêmio Camera D’Or em 2017 com seu filme de estreia, “Jovem Mulher”, voltou a Cannes esse ano com “Un Petit Frére”. O filme acompanha a trajetória de Rose e seus filhos Jean e Ernest, imigrantes da Costa do Marfim, desde que eles chegaram à França e se estabeleceram em Paris, no final dos anos 80, até os dias de hoje. Dividido em três partes dispostas em ordem cronológica, cada uma delas contada sob o ponto de vista de um dos integrantes da família, o filme oferece um bom panorama da condição do imigrante africano na França, alternando entre situações de aceitação e pertencimento com momentos em que as dificuldades prevalecem.

Rose se virava como camareira de um hotel para sustentar a família, enquanto o filho mais velho demonstrava aptidão fora do comum para a matemática. Ao chegar à vida adulta, o mais novo se torna professor de filosofia e sugere uma evolução social na condição do imigrante, mas é ele quem protagoniza a situação em que o racismo aparece de forma mais clara no filme, uma cena forte de uma abordagem policial. Serraille trata a saga de Rose e dos jovens com delicadeza, enfatizando a condição da mãe guerreira que também quer dar vazão aos seus desejos femininos.

Ela precisou contar, em uma entrevista divulgada pela produção do Festival, que a inspiração para o filme veio da trajetória de seu próprio marido, um imigrante africano que desembarcou na França com 8 anos. Ao que tudo indica, isso lhe deu salvo conduto para não ser alvo de críticas e patrulhas por ser uma mulher branca contando uma história de negros. Sinal dos tempos.




R.M.N., de Cristian Mungiu

O romeno Cristian Mungiu é outro habitué de Cannes, desde que ganhou a Palma de Ouro, em 2007, com o pesado drama “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”. Foi eleito melhor diretor em 2016 por “Bacalaureat” e agora voltou à competição com “R.M.N”, título que remete a um tipo de ressonância magnética e pode ser lido como metáfora para a radiografia de um país com sérios “tumores” sociais. As contradições expostas por Mungiu começam quando o romeno Mathias, que vive e trabalha na Alemanha, ataca violentamente um colega que o chamou de “cigano” e abandona o emprego, retornando para casa, na região da Transilvânia. Se na Alemanha Mathias era um imigrante visto pejorativamente como “cigano”, em casa seus conterrâneos romenos se orgulham de terem expulsado os ciganos da cidadezinha em que vivem. E agora demonstram intolerância com o fato de a panificadora local ter contratado imigrantes do Sri Lanka, dentro dos procedimentos legais, para ocuparem as vagas que os próprios moradores não quiseram, por acharem que pagava pouco.

A chegada dos imigrantes desencadeia uma escalada de atos hostis e violentos por parte dos moradores, que planejam expulsá-los. Um debate é convocado pelo prefeito e pelo pároco local a fim de buscar um entendimento, em uma sequência de mais de 15 minutos, tempo necessário para servir como um choque de realidade e desesperança para o espectador que acredita que o diálogo pode ser o caminho para vencer a ignorância e a desinformação num mundo intolerante e radicalizado. Mungiu se inspirou em um episódio verídico acontecido no início de 2020 na Romênia e seu bom filme dá conta da complexidade que envolve todos os agentes envolvidos nesse microcosmo.




AS BESTAS, de Rodrigo Sorogoyen

Exibido fora da competição, o thriller psicológico “As Bestas”, do diretor espanhol Rodrigo Sorogoyen, trata de outro tipo de imigrante – nesse caso, de europeus dentro do próprio continente, que não estão fugindo de guerras ou do desemprego em seus países. O casal francês de meia idade formado por Antoine (Denis Ménochet) e Olga (Marina Foïs) larga a vida urbana para se estabelecer num pequeno povoado na Galícia, região autônoma dentro da Espanha. Eles têm um projeto ecológico, sem fins lucrativos, de reformar as casas abandonadas do local para atrair as novas gerações para uma vida rural autossustentável, baseada na agricultura. Vendem o que plantam na feira local, mas o que seria um ideal paradisíaco pode estar prestes a se transformar em um inferno para eles.

Isso porque uma empresa de energia eólica está interessada em comprar os terrenos dos moradores para instalar seus equipamentos, e um dos maiores defensores da proposta é o vizinho do terreno ao lado, Xan (Luis Zahera), que vive lá desde que nasceu com a mãe e o irmão. Como a compra só pode ser concretizada se todos os moradores aceitarem, Xan começa a se indispor com Antoine, a quem só se refere pejorativamente como “o francês”, numa tentativa de colocá-lo contra os demais moradores. Aos poucos as ameaças de violência começam a se concretizar, numa espiral que a direção de Sorogoyen sabe valorizar com a criação de uma atmosfera envolvente de suspense.

Em um determinado momento, Antoine e Xan sentam-se à mesa para buscar um entendimento civilizado. É quando ouvimos os argumentos de Xan, para quem as boas intenções do francês de nada valem para ele, que diz que “após 50 anos sobrevivendo nesse fim de mundo de merda, tenho a chance de ganhar um dinheiro para me mudar e tentar comprar um táxi”. Na sua visão, que direito um estrangeiro letrado, intelectual, teria de se meter na vida de pobres ignorantes como ele, tentando privá-los do que seria uma oportunidade única?

É uma tentativa, por parte do roteiro (co-escrito pelo diretor com Isabel Peña), de humanizar o lado da “besta” do título e adicionar uma certa complexidade à reflexão, mas o confronto Bem x Mal já está bem demarcado e assim seguirá até o fim do filme, cujo ritmo cai quando passa a assumir o ponto de vista da mulher de Antoine, mas não chega a comprometer a obra como um todo.

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