Críticas


ALGUMA COISA ASSIM

De: MARIANA BASTOS e ESMIR FILHO
Com: CAROLINE ABRAS, ANDRÉ ANTUNES, CLEMENS SCHICK
26.07.2018
Por Maria Caú
Menos Linklater do que o prometido, mas ainda assim charmoso.

Em 2006, Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes) são dois adolescentes experimentando com a liberdade pela noite de São Paulo. Sete anos depois, reencontram-se quando ele decide casar com o namorado e convida a amiga para ser madrinha. Finalmente, na Berlim de 2016, passam algumas semanas juntos quando ele, já separado, vai fazer um estágio na cidade e é hospedado por ela, que mora ali. É nesse último cenário que, após uma experiência sexual inusitada, Mari acaba engravidando de Caio. Precisando aguardar os três dias requeridos pela legislação alemã para fazer um aborto, os dois tentam conviver e revisitam o histórico de uma relação ambígua.

Essa é a trama de Alguma coisa assim, de Mariana Bastos e Esmir Filho, propagandeado como o Boyhood brasileiro por ter sido realizado com os mesmos atores ao longo de dez anos, em três etapas. A estrutura realmente lembra os trabalhos do diretor Richard Linklater, em especial a trilogia iniciada com Antes do amanhecer (1995), que acompanha o mesmo casal em três tempos, com intervalos de nove anos. O estilo do filme nacional, no entanto, pouco lembra a obra do diretor norte-americano, bastante centrada em extensos diálogos que misturam arte, sexo, amor e questões existenciais. O formato também não é exatamente novo do Brasil: em 2017, Manuela Dias lançou Love Film Festival, que acompanha os desencontros de um casal ao longo de seis anos em quatro episódios passados em festivais de cinema de diferentes lugares do mundo.

Diferentemente dos filmes de Linklater e Dias, no entanto, Alguma coisa assim não apresenta os episódios de maneira cronológica, mas entremeados. O filme é baseado no curta-metragem homônimo de 2006, vencedor de um prêmio na Semana da Crítica em Cannes daquele ano; em realidade, o curta de 15 minutos é reproduzido quase que em sua totalidade, partido em trechos no corpo do longa, mesclados às duas outras linhas temporais.

A narrativa tem seu charme, apesar dos diversos clichês em que se apoia; os atores convencem e a fotografia muitas vezes lembra um cativante videoclipe de alguma banda indie obscura. Aos poucos, no entanto, a fórmula cansa, principalmente porque os flashbacks são ilustrativos demais, sublinhando principalmente a ambiguidade dos sentimentos de Mari com relação à homossexualidade de Caio e sua queda pouco disfarçada pelo amigo.

A (boa) discussão sobre o aborto também ganharia força se, a despeito das muitas dificuldades desse tipo de produção, Caio e Mari fossem mais velhos neste ponto. Antes dos 30, o peso desse tipo de decisão se dilui um tanto. Além disso, um dos grandes problemas do filme é a falta de arco de desenvolvimento dos protagonistas; de fato, temos a sensação de que os personagens pouco cresceram ou mudaram em dez anos, apesar dos seus novos cortes de cabelo e empregos. Todas as sequências sobre o trabalho de Caio como pesquisador (justamente de embriologia) parecem forçadas e em nada refletem sua personalidade ou seus interesses mais amplos.

No fim, forma e conteúdo parecem meio dissonantes, e a sensação que o espectador tem é que a estrutura é o grande trunfo do filme. E ela tem seu brilho, é verdade, mas seria melhor se o conteúdo não tivesse ficado um tantinho para trás.





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