Sob sonoridade sacra, cambaleia uma bandeira do Brasil. A música permanece, mas a imagem se dissolve. O movimento horizontal descobre um terno; atrás dele, fora de foco, a moldura dourada de uma pintura. Dourada como o anel na mão que ajeita o paletó. Dourada como a abotoadura cuidadosamente posicionada na gravata. Dourada como os dentes amarelos, que sorriem. Ou como as hastes dos óculos cujo dono fita o espectador. O homem desaparece, a música continua. Uma tomada aérea revela um “mar de lama”. Antes aberto, o cenário sofre reenquadramento. Em operação contrária, o homem reaparece envolto por rochas. Do particular - terno, anel, abotoadura, dentes, óculos -, passa-se ao geral: um rei sentado sobre seu trono. O Amigo do Rei, lê-se em uma fonte - dourada, é claro - de aparência medieval.
O contraste do rei de terno com a bandeira trôpega corresponde, percebe-se, à contradição entre um Estado democrático de direito e a permanência de privilégios - medievais como a fonte das letras. Quem seria, no entanto, O Amigo do Rei? A onipresente cor sugere o equivalente do ouro: tanto em um sentido mais imediato, do poder público corrompido pelo capital, quanto no da lembrança menos óbvia da insalubre atividade mineradora do início do século XVII - notadamente em Minas Gerais, onde se passa o filme. O campo sonoro, por sua vez, introduz mais um elemento, essencial para a dinâmica de tais relações: o agente religioso.
“Por Deus”: não se precisa recordar aqui os argumentos elencados pelos deputados favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff. Nesse sentido, o longa-metragem tampouco se detém nesse saturado registro. A breve alusão serve a um objetivo futuro, quando se ouve algo de enorme semelhança. “Que Deus abençoe a família”, “eu queria deixar um versículo”: a religião invade a audiência do caso Mariana, procedendo como elemento de costura entre os questionáveis acordos políticos e a inquestionada subserviência da opinião pública.
Se a presente análise se restringe, porém, a um mísero minuto, isso acontece porque os demais 141 atuam como uma espécie de filme “anti-institucional”. Em primeiro lugar, deve-se esclarecer do que trata um vídeo institucional: por meio dele, a empresa contratante se apresenta a possíveis parceiros. O que consistiria, então, em um “anti-institucional”? Justamente no oposto: por meio de transdisciplinares explicações técnicas, O Amigo do Rei investe em uma assertiva culpabilização das empresas responsáveis - culminando em uma montagem de entrevistados apenas a repetir os nomes das multinacionais. Contraditoriamente, portanto, a produção recai no mesmo formalismo técnico e deixa de lado a interessante aposta cinematográfica no borramento entre ficção e documentário.
Um “anti-institucional” com cara de institucional: assim pode se descrever o longa de André D’Elia, parte do projeto de informação ambiental “Mar de Lama Nunca Mais”. Entre a criativa porém precária ficcionalização e os convencionais depoimentos pontuados por voice over e ilustrados por videografismo, o importante tema não compensa a pobre linguagem. Ao contrário: a crescente trilha musical chega frequentemente a silenciar quem deveria protagonizar a obra, isto é, os moradores das regiões afetadas.