Duas tendências ameaçam a captura cinematográfica de figuras da intelectualidade. De um lado, remissões biográficas esvaziam o pensamento quando o limitam a uma série de relações causais. De outro, abordagens didáticas conjugam conceitos audíveis e ilustrações visíveis em uma anulação mútua. Cientes desses riscos, Gorav e Rohan Kalyan investigam, em Badiou, as condições sob as quais se torna habitável esse nome próprio, um dos mais importantes da filosofia contemporânea.
Antes mesmo de qualquer imagem, Alain Badiou teoriza o acontecimento (événement), base de seu sistema filosófico. Trata-se, segundo ele, de uma interrupção na narrativa biográfica, de um corte – tal qual aquele efetuado pelos irmãos Kalyan entre a tela preta e a janela de uma aeronave. O som da turbina divide a trilha com a voz do biografado, em uma definição do événement a partir de suas imprevisibilidade e incalculabilidade. O avião alça voo, e os créditos tomam conta do ecrã, ritmados pela abertura de O holandês voador. Não obstante o tom grandioso da ópera wagneriana – músico revolucionário para Badiou, malgrado sua incorporação pelo fascismo –, o heroísmo transcende a dimensão pessoal da personagem em direção à universalidade de suas ideias.
Pouco depois, em uma confissão à primeira vista banal, ele relata seu ódio por viagens: por que então o voo inicial? Mais uma vez, as imagens não dizem respeito à vida privada; o verdadeiro protagonista é o pensamento. Como o avião, cuja aparente leveza oculta toda uma complexidade, o autor assume com sua filosofia o dever de se dirigir universalmente, mas sem que isso jamais implique uma simplificação. Dado o seu alcance massivo, a Sétima Arte se presta a redescobrir semelhante caráter aéreo contra o peso do dinheiro – no vocábulo badiousiano, em um cinema como acontecimento. Assim procedem os irmãos Kalyan: longe de pretensões comunicativas, inserem a personagem em um conjunto de relações.
Nas revoluções políticas, nas invenções científicas, nos imprevistos amorosos ou nas criações artísticas, a vida de Alain Badiou se mistura às quatro condições para a emergência de uma verdade. A percepção, desde criança, da desigualdade entre sua mãe e as funcionárias árabes prenuncia a ruptura de maio de 1968. As influências presumidamente antagônicas de Platão e Sartre sustentam o “impossível” projeto de salvar a subjetividade dentro de um contexto estrutural. Os encontros com as esposas Françoise, Cécile e Judith centralizam o amor enquanto experiência transformadora. Do sonho em se tornar ator – traduzido por inéditas fotos de Badiou travestido em uma peça –, herda sua filosofia a coragem dos palcos.
Quanto aos procedimentos artísticos, ainda, um comentário improvisado no Grand Rapids Art Museum retoma suas Quinze teses sobre a arte contemporânea. Entre os quadros discutidos, interessa-lhe menos a narratividade alegórica de Andrea Kowch em Sojourn, e mais a alusão à possibilidade de uma paisagem em Midland, composição digital de Al Waldey. Do mesmo modo, um filme como o de Gorav e Rohan Kalyan, marcado mais por um fluxo de ideias do que por uma estaticidade aprisionante, talvez possa fazer justiça a essa figura tão genial quanto carismática.
* O filme, em inglês e francês, com legendas em inglês, está disponível em seu site oficial.