Críticas


AMMONITE

De: FRANCIS LEE
Com: KATE WINSLET, SAOIRSE RONAN, FIONA SHAW
12.02.2021
Por Luiz Baez
Pequenos momentos de pureza escondidos sob superfície irregular

O singular título Ammonite (2020), inédito no Brasil, dificilmente esclarece seu significado até quando traduzido para o português, amonite. Uma rápida consulta ao dicionário revela tratar-se de um molusco extinto ainda no período Cretáceo, dizimado pelo mesmo processo que vitimou os dinossauros. Dessas criaturas aquáticas restam apenas fósseis, escavados por Mary Anning (Kate Winslet) no novo filme de Francis Lee (O Reino de Deus). O trabalho da paleontóloga consiste em limpar as pedras coletadas na praia para delas extrair documentos históricos. Na impureza da superfície descobrir, tal qual um ourives, pequenos, porém valiosos, momentos purificadores: é assim que o filósofo francês Alain Badiou entende as operações cinematográficas. Tais “graças do visível”, sempre intervalares, transparecem nos minuciosos gestos de Mary e Charlotte (Saoirse Ronan), corpos desafiantes à Inglaterra vitoriana - situação espaçotemporal da narrativa.

Anterior a qualquer interrupção, uma ordem social se apresenta na dinâmica entre Roderick Murchison (James McArdle) e sua esposa, Charlotte, a quem o nobre homem veta escolhas básicas como a do próprio jantar. Enquanto os dois interagem em um restaurante sofisticado - ou melhor, somente ele, já que a mulher sequer pode “fazer barulho” -, Mary cozinha ovos com a mãe. Removida a casca, o embrião morto por ela contido antecipa visualmente o primeiro desajuste. Charlotte não consegue cumprir o esperado papel de mãe, tendo sofrido um ou mais abortos espontâneos. Tampouco se adequa à função de cuidadora do lar, conforme mostram cenas posteriores em que falha no simples preparo de alimentos. Mary, por sua vez, se consolida como uma renomada cientista, despertando até do sexista Roderick o desejo de tornar-se pupilo. Nesta interação, as descobertas do homem bem resumem a sua pequenez: ele nada mais encontra que fezes fossilizadas.

Confrontadas com um ambiente pouco propício ao desenvolvimento do afeto, as protagonistas resistem patologicamente - advérbio aqui empregado antes sob sentido eisensteiniano, referente à fisicalidade, do que clínico. A opressão do arredor se traduz na violência do som diegético, revoltas ondas das quais a trilha extradiegética - com predominância do piano - extrai a pureza de uma musicalidade no contato entre os corpos. Os diálogos, frequentemente invadidos por essa cacofonia, importam menos do que as sugestões visuais, que vão desde carícias e olhares - potencializadas pela sutileza da performance de Winslet - até uma singela ausência no figurino e seus significados. Duas mulheres que se aproximam por um “contrato” - seja ele financeiro (o pagamento de Roderick) ou social (o pedido do médico) - e rompem gradualmente com quaisquer normas: a lenta e cuidadosa transformação encaminha para uma entrega aos prazeres. 

Neste desfecho, o privilégio até então vigente à sensorialidade dá lugar a uma dramaturgia mais tradicional. Já subentendida desde a primeira conversa entre ambas, por exemplo, a relação passada da paleontóloga com a apotecária Elizabeth (Fiona Shaw) se explicita em diálogo. Ao convencionalismo dessa abordagem soma-se ainda outro, talvez mais preocupante. Embora gestualmente Mary e Charlotte suspendam uma ordem pautada sobretudo pela hierarquização entre indivíduos, a desigualdade pode-se restituir não mais pela diferença entre os gêneros, mas por aquela entre as classes. É possível uma relação de dois sujeitos para além da ideia de posse? É possível sustentar o amor mesmo sob condições desfavoráveis? Como em seus melhores e purificadores momentos, Ammonite não precisa de palavras para responder essas questões. Eis a riqueza de seu último plano, em que a distância não se supera, mas deixa atravessar-se. 


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