No banco traseiro de um automóvel, um garoto de traços orientais olha para frente, onde seu pai dirige ladeado pela mãe, que lê um livro em inglês. O carro segue um caminhão de mudanças, este também gravado por palavras anglófonas, enquanto as janelas deixam entrever a esverdeada paisagem do Arkansas. A ambientação bucólica, reforçada por uma trilha musical quase etérea, subitamente se transfigura em uma atmosfera sombria, diminuindo bruscamente o intervalo entre uma nota e outra. Minari, subtitulado no Brasil como Em busca de felicidade*, introduz, desde a sua sequência de abertura, os recorrentes temas da imigração e da inevitabilidade do destino.
A bem da verdade, o começo do “sonho americano” precede à narrativa. Quando se apresenta a família Yi, ela já deixara a Califórnia à procura de uma nova esperança no sul do país, onde o progenitor, Jacob, pretende cultivar uma horta. Depois de uma vida difícil na Coreia, a América promete a ele, à esposa - Monica - e à filha - Anne - nada menos do que a salvação. David, o caçula, sequer chegou a conhecer o continente asiático, e seu “eu” se confunde entre o esquecimento da ancestralidade e o não pertencimento imposto por mentalidades conservadoras. Por um lado, o inglês substitui o coreano como principal forma de comunicação, bem como o refrigerante Mountain Dew toma o lugar da tradicional bebida preparada com chifre de veado. Nem mesmo a própria avó é reconhecida, uma vez que não se adequa à imagem da senhorinha recatada carregando uma forma de biscoitos.
Por outro lado, a identidade estadunidense entra em choque quando confrontada com outras crianças, que reduzem a aparência de Anne e David à flacidez de suas bochechas, e o idioma nativo à repetição de lero-leros. A despeito da expectativa da mãe, o menino não se sente coreano e tampouco se integra plenamente à cultura cercada pela qual nasceu. Ao mal-estar psíquico gerado por esse não lugar soma-se ainda um de ordem médica. O infortúnio sugerido na dramaticidade da música inicial está também patente na constante preocupação com a saúde do filho, angústia esta cujo motivo só se explicita passado mais de um terço do filme. Neste sentido, um cruel recurso de montagem paralela reflete sobre a condição de David - e, mais amplamente, de seus pais.
O corte nivela um acidente doméstico e outro laboral. Jacob e Monica, é importante mencionar, cuidam do processo de sexagem de frangos: separam os machos das fêmeas para “descartar” os primeiros. A grafia entre aspas não se justifica por mero estilo: trata-se do eufemismo utilizado pelos adultos para explicar ao filho a carbonização de seres “inúteis” - já que não ofertam carne saborosa nem ovos. Por extensão, em uma sociedade pós-fordista, orientada pelo produtivismo, talvez sejam assim percebidos os Yi, cujo valor único residiria em quantos pintinhos conseguem distinguir por minuto - lógica excludente, logo, de um corpo doente como o do pequeno David.
Contrapondo-se a essa conjuntura, o cultivo da horta oferece oportunidade de independência financeira. A imigração anual de trinta mil coreanos para os Estados Unidos, pensa Jacob, criaria uma demanda de produtos típicos daquele país. Será, porém, que essas famílias realmente preservam os costumes? A ausência de vínculos comunitários - tal qual igrejas -, assim como a rotina dos protagonistas, torna plausível uma resposta negativa. E, além disso, o que significa transformar em objeto de comércio uma parte da cultura? Quiçá o próprio título desvele uma alternativa possível. Conforme se revela em diálogo, a planta asiática minari resiste em qualquer ambiente e não faz distinção entre ricos e pobres, dada a sua abundância e acessibilidade. Sua resiliência, ainda que em solo estrangeiro, traz consigo, portanto, o gérmen de uma promessa muito mais honesta que o individualista “sonho americano”, qual seja, a verdadeira igualdade.
* A distribuidora Diamond Films ainda não anunciou a data de lançamento nacional.