Críticas


HIGIENE SOCIAL

De: DENIS CÔTÉ
Com: MAXIM GAUDETTE, LARISSA CORRIVEAU, ÉLÉONORE LOISELLE
22.10.2021
Por Luiz Baez
Brecht na campanha

Qual cumplicidade tácita poderiam partilhar, de um lado, o distanciamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus e, de outro, o distanciamento simbólico agenciado pela dramaturgia? Essa estranha pergunta parece reincidir nos intervalos entre uma e outra longuíssima tomada de Higiene social (Hygiène sociale, 2021), novo filme do canadense Denis Côté (Antologia da cidade fantasma) que integra o catálogo online da atual edição da Mostra de São Paulo. Composta, basicamente, por um conjunto inferior a dez planos-sequência jamais decupados internamente, cuja duração média se acerca dos dez minutos (em uma obra com apenas cinco quartos de hora), a estrutura do longa-metragem repete uma singular disposição espacial em seus cenários campestres: entre o protagonista, Antonin (Maxim Gaudette), e cada interlocutor, respeita-se o mínimo de dois metros recomendado pelas agências de saúde. Ainda que se trate de um flerte romântico, ainda que dois homens desfiram socos entre si, os corpos filmados nunca se tocam.

Nesta última situação (a da peculiar “luta”), a presença de um dos combatentes talvez ajude a conectar os dois tipos de distância, à primeira vista tão diversos. Em uma cena que gira em torno de Antonin e sua amante, Cassiopée (Eve Duranceau), uma terceira personagem se posiciona no meio e atrás de ambos (formando uma espécie de triângulo), sem no entanto nada dizer. É como o espectador – a que o protagonista alude em uma de suas anedotas – que se senta na primeira fileira do cinema “para assistir ao filme antes dos outros”. Chamá-lo para uma batalha “corpo a corpo” – tão figurada quanto as aspas indicam, já que não há aproximação real – quiçá corresponda, metonimicamente, a um convite para desconfiar ativamente desta e de outras imagens. Tal qual preconizava o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que acreditava eliminar a ilusão do teatro dramático tornando estranho o familiar, algo frequentemente escapa ou não encontra lugar em Higiene social, cujas referências passadas e pastoris (locação e figurinos bucólicos) não cessam de deparar-se com suas contrapartes contemporâneas e urbanas (evidenciadas sobretudo nos diálogos).

A permanência, em todo caso, de reconhecíveis instituições sociais nos insta a questionar a forma naturalizada sob a qual elas são percebidas cotidianamente. Exemplar dessa operação, a personagem Rose (Kathleen Fortin), uma funcionária da Receita Federal vestida com a cor que a nomeia (“é um pseudônimo”, reage o protagonista, incrédulo), justifica com a mesma aparente obviedade seus muitos preconceitos: “sou racista por força das circunstâncias”, não vacila em afirmar quando expõe seu ódio a árabes, indianos e chineses. Ao falar, entre outros assuntos, sobre a infância, ela empresta corpo e voz a um sistema econômico, conjugando tanto o seu poder ideológico (as histórias de ninar, que moldam credos e temores desde a mais tenra infância) quanto repressivo (a violência sofrida quando desobedecia o pai). Nesse processo, distâncias cinematográficas e distâncias sociais ensejam um encontro do qual, quem sabe, possa emergir um olhar distanciado para o nosso próprio mundo (e seus sintomas cada vez mais visíveis), cuja transformação cabe, porém, ao espectador. Nisto reside a potência – imaginária, e não prescritiva – da obra de Denis Côté.


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