Críticas


EL PLANETA

De: AMALIA ULMAN
Com: ALE ULMAN, AMALIA ULMAN, NACHO VIGALONDO
26.10.2021
Por Luiz Baez
Aparências em órbita

Enquanto Leonor, interpretada pela própria diretora, Amalia Ulman, aguarda na antessala de uma entrevista de emprego, duas candidatas conversam sobre o ensino infantil. Uma conta à outra a história de um colégio elitista, em que, embora frequentado por crianças pobres e ricas, tal informação jamais podia ser revelada a estas, cujos pais acreditavam pagar uma educação exclusiva. Assim, nos raros momentos em que os dois grupos se cruzavam no pátio, as professoras dos menos abastados fingiam pertencer a uma excursão. É precisamente neste conflito de aparências que orbita El Planeta (2021), estreia de Ulman em longas-metragens: a começar por seus aspectos formais, marcados pelo contraste entre a sóbria fotografia em preto e branco e a confessada afetação de quase todos os outros setores. Na montagem, por vezes o jump cut quebra a continuidade entre um plano e outro, ao passo que as constantes transições geométricas (triângulos, retângulos, losangos) ou em forma de “página virada” denunciam o artifício. Na cenografia, o cafona apartamento alugado em que Leonor vive com a mãe, María (Ale Ulman, mãe da realizadora), mais parece um altar à falecida gata de estimação, com um calendário temático na cozinha e almofadas estampadas na sala, além de estátuas e desenhos de felinos.

Na narrativa, por seu turno, o título do filme corresponde ao nome do restaurante em que María aplica um de seus golpes. Após degustar os principais pratos do charmoso El Planeta, à beira da praia de Gijón, a bem-vestida senhora encaminha a conta à fatura de um político que diz namorar. Já quando precisa renovar o armário, faz-se valer de uma fictícia reputação da filha para trocar roupas por publicações no Instagram. Ainda que lhe faltem alimentos na geladeira e que precise furtar o mercado, e até mesmo que a polícia bata à sua porta, ela sequer cogita mudar os velhos padrões de consumo. Afinal, se a prisão oferece água e comida, não deve ser tão ruim; pior seria caso os vizinhos descobrissem que ela não é mais rica, caso não pudesse ir ao salão de beleza, caso tivesse que abrir mão de seu iPhone ou de seu tablet. Desde a absurda sequência de abertura, Leonor enfrenta semelhante dilema: conforme ela conversa com um homem desconhecido, vivido pelo cineasta Nacho Vigalondo, o espectador não sabe se assiste a um primeiro encontro ou a uma proposta de emprego. Na verdade, trata-se de ambos, e a moça reflete em voz alta sobre a equivalência possível entre um livro e uma performance de sexo oral: vinte euros comprariam os dois? 

Uma saída para este planeta – em última instância, o nosso – que tudo reduz sob o denominador comum do dinheiro pode ser apontada pela arte. Ao longo da projeção, o som de um aparelho televisor situado ao fundo da cozinha anuncia a chegada de Martin Scorsese, cujo novo projeto, Fábrica de Scorsese, promete emprestar um pouco de seu prestígio a Gijón. Sabe-se, porém, que a sétima arte também produz figuras mistificadas, único prisma sob o qual María consegue enxergar a obra do realizador estadunidense: ao falar sobre Cassino (Casino, 1995), ela desvia o assunto e admite não gostar de Sharon Stone por causa do formato de seu rosto, elencando em seguida estrelas de sua preferência, como Kim Basinger e Michelle Pfeiffer. A factual visita de Scorsese à região de Oviedo-Gijón, segundo mostram imagens de arquivo durante os créditos, coincidiu historicamente com manifestações de esquerda, em um contexto de grave crise econômica, e serviu para mascarar as condições de vida dos moradores daquela província. Eis aí os dois gumes da faca cinematográfica, contra cuja faceta reacionária Ulman ensaia impor resistência.


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