Críticas


A FILHA PERDIDA

De: MAGGIE GYLLENHAAL
Com: OLIVIA COLMAN, JESSIE BUCKLEY, DAKOTA JOHNSON
05.01.2022
Por Susana Schild
As dores da maternidade segundo Elena Ferrante

A maternidade como vivência perturbadora, sufocante, frustrante. Que substitui o antigo ‘eu’ por um novo, idealizado e celebrado desde todo o sempre como o ápice da realização feminina. Ou um “eu” desconhecido. E nada agradável no caso de A Filha Perdida, com direção da até então atriz Maggie Gyllenhaal (Coração Louco, Adaptação). Recém-chegado ao streaming via Netflix, o filme já acumula prêmios, como o de melhor roteiro no Festival de Veneza, e indicações (melhor direção e atriz [Olivia Colman] ao Globo de Ouro).

Após um prólogo no qual uma mulher vestida de branco tomba de noite, à beira-mar, acompanharemos Leda, 48 anos, leve e solta dirigindo seu carro, e firme disposição em aproveitar as férias em pequena ilha grega. Tudo parece conspirar a seu favor. A gentileza do gerente, o quarto amplo e confortável, a vista para o mar, a praia inicialmente vazia. O sossego, no entanto, dura pouco, e logo chegam os turistas barulhentos. O olhar de Leda é atraído por uma jovem mãe e sua filha. Esta observação e seus desdobramentos disparam o gatilho de doloroso rastro-atrás. “Sou uma mãe desnaturada”. Apesar da carreira bem-sucedida, é assim que Leda se define. E o passado, presente através de alentados flashbacks, revela com intensidade o tormento de uma jovem mãe. Não que ela não ame suas filhas pequenas. Ela simplesmente não suporta a sobrecarga física e emocional que representam, com exigências estapafúrdias como ‘dar um beijo no dedo machucado'. Tão sereno se refugiar no trabalho. As filhas cresceram, a mãe parece ter encontrado um meio termo. Só que não. E as lembranças? Como lidar com elas? Ao seu lado, Nina (Dakota Johnson) também tenta atender as demandas de Elena, em busca de Nani, a boneca perdida. Nomes tão parecidos, embaralhados como uma massa única: responsabilidade sufocante.

Maggie Gyllenhaal assina o roteiro radicalmente fiel ao texto da celebrada autora italiana Elena Ferrante e empreende uma estreia promissora. Com montagem hábil e trilha musical compatível, A Filha Perdida entrelaça tempos, com expressiva fotografia e ênfase em closes da francesa Hélène Louvart (que esteve entre nós via A Vida Invisível de Karim Aïnouz)

A apresentação de personagens desagradáveis - sobretudo em tema sagrado, como a maternidade - é desafio enfrentado com brio. Olivia Colman (Oscar por A Favorita, nova indicação por Meu Pai) imprime um mundo de emoções com um mínimo de atuação. Um monstro, no bom sentido. Já Jesse Buckley (também brilhante em Judy: muito além do arco-íris, entre outros) não se inibe no desagradável retrato de Leda quando jovem. Atrizes tão diferentes mas unidas por rara simbiose em filme dominado por presenças e pelo espírito dos ‘femininos”.

(Texto publicado em O Globo, 5 de janeiro de 2022)


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