Estamos em 1923, há um século exato, numa ilha na costa da Irlanda. A vida é dura, os encontros sociais parecem reduzidos: no bar e na igreja aos domingos, quando o padre chega de barco do continente para rezar missa e escutar os pecados dos católicos (todos, certamente) no confessionário.
Pádraic (Colin Farrell) vai à casa de Colm (Brendan Gleeson) para irem ao bar, mas Colm não o atende. Pádraic teme haver brigado com Colm em estado de embriaguez, de lhe ter dito coisas ofensivas que, pelo pileque, não lembra, mas Colm esclarece que nada disso aconteceu. Ele “apenas” não gosta mais de Pádraic. Tocador de rabeca da ilha e, por isso, admirado por homens e mulheres, mesmo aparentando alguma idade e muito longe de ser um tipo mais simpático ou bonitão, Colm não quer mais “perder tempo em conversas”, algo tão prosaico perto do que almeja: ele quer se dedicar mais a compor suas músicas.
O espectador é informado por comentários, deles mesmos e de personagens secundários (por vezes, no pub, lembram um coro de peças gregas), que, até a véspera, seriam os melhores amigos, mas cabe agora a Pádraic aceitar que a convivência fraternal para bebedeiras e conversas jogadas fora passou a ser assunto encerrado. Só que não: Pádraic sofre, insiste, teme que sempre tenha sido visto como “chato” ou/e “bobo” quando apenas pensava em como seria bom, para todos e para ele mesmo, ser “simpático”, alegre. Pergunta à irmã com quem divide a casa, pobre como todas, se é chato, tolo, idiota. Ela gosta de ler, parece não frequentar muito o bar, embora possa tomar alguma coisa de vez em quando. E nega que ele seja essa figura desvalorizada na - ou pelas pessoas da - ilha.
Um personagem mais jovem, Dominic (Barry Keoghan) deixa o público com a ideia de que o “sem-noção” da ilha é este: faz perguntas inadequadas (se Pádraic já viu a irmã nua), fica pensando como Colm agrada às mulheres graças à sua rabeca, parece estar sempre em estado de excitação sexual à moda de adolescentes em explosão hormonal. Pelo menos, comparativamente, Pádraic, ainda que possa ser um homem de coração simples e mente sem maiores horizontes ou aspirações, jamais seria “o bobo da aldeia”. E sofre pela rejeição irremovível por parte do agora ex-grande amigo.
Um dos trunfos do roteiro (premiado em Veneza 2022) é não mostrar os antecedentes de tal amizade e nem como era a vida na ilha até agora. O que interessa é como o filme começa e seu elemento disruptivo: a ambição de Colman em deixar um legado através de sua música. Parece-lhe que, para tanto, a amizade e bebedeiras em conjunto com Pádraic seriam fatores de dispersão contrária ao seu projeto. Mas pelas vezes em que o vemos no confessionário as coisas são um pouco mais complexas: o padre sempre começa perguntando a Colman como vai o “desespero”. Para católicos praticantes de fato, a desesperança que pode culminar num suicídio, por exemplo, é um grave pecado contra o Espírito Santo, o amor divino, uma apresentação da própria Divindade como são o Deus-Pai e o Deus-Filho. Em tom menos grave, Pádraic pergunta a Colman se ele está morrendo (subentendida a ideia de uma doença grave), mas Colman nega. Então, argumenta Pádraic, Colman vai viver mais doze anos, poderá compor – e por que seria mais importante compor? Ser simpático não é importante? Colman devolve: "Quem, do século XVIII, é lembrado por ter sido “simpático”? – Ninguém! Mas Mozart é sempre lembrado!". Mas Pádraic nem sabe quem foi Mozart. Um abismo se explicitou entre eles.
De um modo tão simples quanto bruto, em uma comunidade literalmente ilhada, fechada e com um catolicismo de aspectos rígidos e até mesmo algo primitivo, surge uma angústia com a finitude em um personagem com alma de artista, um artista também de formato que poderíamos dizer "primitivista", tal como existe na pintura. Colman quer deixar um legado, uma forma de sobrevida, este é o seu desespero - quase um pecado, o original, do orgulho. Outros pecados são aventados pelo padre: pensamentos impuros com homens? - para indignação de Colman. Jamais ficará sugerido qualquer traço homossexual entre os amigos, mas se aceitarmos que em toda forma de amor existe uma base de libido sexual, mesmo que jamais genital, a pergunta do padre é interessante pela intensidade como a quebra do laço acontece. Mais perplexidade surge quando Colman ameaça Pádraic: caso ele insista, cada vez que o outro lhe dirigir a palavra, o rabequista cortará um dedo de suas próprias mãos. Uma forma de castração? Bem surpreendente para um homem que afirma não querer mais perder tempo com nada além de sua rabeca que, para ser tocada, carece dos dedos...
O diretor e roteirista Martin McDonagh recorre ao mesmo fotógrafo de seu filme anterior, Três anúncios para um crime (2017), Ben Davis, tão eficiente nos grandes planos abertos e mais claros da ilha, seus verdes da grama ou das águas do mar, como nos interiores escuros mal iluminados das casas humildes e do único e miserável "pub". E também retoma os atores de Na Mira do Chefe (2008), Farrell e Gleeson, o primeiro premiado em Veneza. Pode ter sido justo, mas não ficaria mal compartilhar o prêmio com o outro. Farrell já havia demonstrado como pode render, por exemplo, no subestimado filme de Woody Allen O Sonho de Cassandra (2007) ou no superestimado (por parte da crítica e premiações) O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), de Yorgos Lanthimos. De qualquer modo, vale lembrar este filme em que Farrell esteve ao lado de Barry Keoghan que aqui faz ‘Dominic’. Corrigindo: o prêmio poderia ser compartilhado pelos três atores de The Banshees of Inisherin. Quem viu Keoghan, sinistro, no ‘Cervo Sagrado’ e o reencontra, algo cômico, pode não reconhecer que se trata do mesmo ótimo ator.
Algumas alusões aos conflitos político-religiosos irlandeses no continente soam tão distantes quanto a ilha em que transcorre todo o filme, periféricas ao enredo central, poderiam não existir, mas como são vagas, não atrapalham o que o filme tem de melhor.
Na virada gradual do tom quase cômico para outro, de maior gravidade, a personagem secundária da velha senhora McCormick pode fazer o cinéfilo bergmaniano lembrar uma figuração de Juventude (1950) em que uma idosa vestida de preto e com o rosto muito branco antecipava a representação da Morte em O Sétimo Selo (1956) do mesmo Ingmar. As cores, aqui, são outras, mas a personagem também tem seu arco que vai do patético/bizarro para o preocupante/inquietante, lembrando uma bruxa/oráculo de maus presságios fora do círculo estreito do catolicismo dominante na região. Se não dá para casar bem com a guerra civil fratricida dos irlandeses, a desunião da amizade fraterna funciona como uma pulsão de morte freudiana que desfaz a fusão promovida pela pulsão de vida, Eros. Num ambiente nada “sofisticado”, o filme mostra como numa comunidade de pessoas muito simples a ruptura de um equilíbrio harmônico pode seguir num crescente interminável que o filme deixará em aberto no belo enquadramento do desfecho. Sempre o demasiadamente humano.
P.S.: No título, "Banshees" diz respeito a seres fantásticos da mitologia celta que podem ser malignos, prevendo mortes que vão acontecer
(Resenha publicada originalmente em outubro de 2022, durante o Festival do Rio)