Críticas


TÁR

De: TODD FIELD
Com: CATE BLANCHETT, NOÉMIE MERLANT, NINA HOSS
01.02.2023
Por Susana Schild
Cate Blanchett faz o seu “básico” e brilha, até onde construção chapada permite

Um dos queridinhos da (fraca) temporada 2022, apresenta sua personagem central – a maestra Lydia Tár - em programa de entrevistas como um similar de Elon Musk. Jovem “ainda” (na faixa dos 40 e muitos)– não há mérito, conquista ou prêmio que tenha deixado escapar em ambiente até então essencialmente masculino. Seu maior trunfo: ser a primeira regente da Filarmônica de Berlim. Celebridade exemplar do século XXI, desconhece revezes. Autocentrada, empoderada, empatia próxima de zero, faz rápida pausa na megalomania e revela o ‘segredo’ da regência: tempo. Na música, tudo gira em torno deste mistério. No cinema também – mas isso ela não lembrou.

Pena que o diretor/roteirista Todd Field tenha se desobedecido – e alongado sua obra muito além do necessário. Mais grave: os semi-monólogos que sua criatura insiste em declamar e intermináveis discussões teóricas. Em seu patamar, a dona da história só aspira permanecer onde está e arregimentar mocinhas ávidas pela honra de lhe pertencer, fiel ao estilo ‘machista’ que critica. Quem perde a utilidade, é descartada. Seus coadjuvantes exibem sintonia falha - a assistente, a companheira, colaboradores ou detratores – não chegam a marcar presença ou função, esta transferida para a indústria digital do cancelamento.

Valores estilosos de produção exibem ambientes bem compostos, enquadramentos elaborados (como a repetição de longos corredores), com fotografia de Florian Hoffmeister e uma trilha irreverente ao tema.

Em estrutura de aguda monotonia, Cate Blanchett faz o seu “básico” – brilha, até onde construção chapada permite (lembra Isabelle Huppert em Elle, mas exagera com postura de super-herói ao erguer a batuta e seus delírios não convencem. Deve levar mais um Oscar, apesar da ruptura de Todd Field com regra de ouro: os personagens podem ser ‘mínimos, insuportáveis, medíocres – mas não os filmes. (O Vagabundo de Chaplin, que o diga).

(Publicado anteriormente no Rio Show/O Globo)


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