Críticas


CRIATURAS DO SENHOR

De: FODHLA CRONIN O'REILLY e SHANE CROWLEY
Com: EMILY WATSON, PAUL MESCAL, AISLING FRANCIOSI
14.04.2023
Por Luiz Fernando Gallego
O filme vai bem até perto do final - quando escolhe proselitismo em detrimento de um arco de personagens mais convincente para o polêmico clímax.

O título, Criaturas do Senhor (God's Creatures no roiginal), é esclarecido no primeiro quarto de hora quando Sarah (Aisling Franciosi), uma jovem abusada por seu atual companheiro, diz: “Somos todos criaturas de Deus na escuridão”. Em inglês, ela usa o termo “dark” que cai bem no filme cuja menção a Deus não se refere a qualquer coisa piedosa ou religiosa: uma comunidade costeira na Irlanda trabalha duro com pesca de salmão (em períodos permitidos) e, principalmente, na criação de ostras, atividade sujeita a riscos variáveis - como contaminação por fungos, o que pode levar a semanas de suspensão do trabalho, criando tensões e problemas financeiros para os criadores autônomos com suas fazendas de ostras paralisadas por um tempo imprevisível até que volte a haver condições de uso alimentar do produto.

A história acontece a partir da volta de Brian (Paul Mescal), filho de Aileen (Emily Watson) depois de algum tempo na Austrália. Fica sugerido que o relacionamento de Brian com o pai não era bom (e não vai continuar sendo), mas nada de concreto é dito sobre o porquê de não ter ficado por lá, retornando a um trabalho duro na “fazenda” de ostras (há algum tempo abandonada) que havia sido trabalhada pelo avô (agora demente), o pai e ele mesmo. Seu projeto é reativar a fazenda, já que Aileen continuou pagando o direito de explorar a atividade na região, diariamente sujeita a marés, permitindo o trabalho humano enquanto na vazante, quando subitamente tudo fica inundado pela maré cheia.

O pai tem críticas ao modo do filho agir - e com apoio da mãe em certas irregularidades - ao reativar o negócio, além de repreender quando ele pesca salmão fora da época permitida. A mãe insinua que, quando jovem, o pai nem sempre fazia tudo dentro da lei, mas será em outro terreno ético que as coisas vão evoluir para uma crise bem grave, não só para este núcleo familiar, como para praticamente toda a comunidade.

O filme avança bem durante quase todo o tempo de projeção com ótimo uso de trilha sonora (por vezes, apenas percussão, elevando a tensão emocional de Aileen), fotografia expressiva, enquadramentos estéticos e desempenhos marcantes, com destaque para a constatação que Paul Mescal tanto pode ser o pai suave e depressivo de sua interpretação minimalista de “Aftersun” (quando teve uma merecida indicação ao Oscar e recebeu vários prêmios mais do que justificados, sendo que - se Hollywood tivesse um olhar atento para quando “menos é mais” - ele levaria a estatueta), mas também pode fazer um neto que é fofo com o avô demente mas que pode ultrapassar sérias barreiras, desrespeitando outras questões morais, muito além da transgressão às regras que definem o trabalho da localidade. Note-se que, no pub do local, o machismo masculino vai escolher ficar contra mulheres de modo absurdo e mais do injusto.

A geralmente ótima Emily Watson faz o que pode, mas os vinte minutos finais do roteiro dão uma guinada pouco convincente para sua personagem quando o filme parece escolher um certo proselitismo feminista em detrimento de aprofundar e detalhar o arco de sua personagem para a polêmica decisão que toma, quebrando um tabu de conduta materna (rumo à mais questionável ainda decisão de “fazer justiça” quando a justiça falha), o que não será mencionado aqui para evitar o spoiler do pretendido clímax do drama - que ainda se estende por mais alguns minutos criando um "segundo final" com uma longa tomada sobre o rosto de uma personagem para deixar bem clara a posição das diretoras e roteiristas, todas mulheres. Uma pena - porque formalmente o filme tem qualidades, mas o roteiro na evolução para seu desfecho é muito insatisfatório.


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