Era 30 de junho de 1999, data que marcaria a estreia de Ronaldinho Gaúcho pela Seleção Brasileira. O Brasil enfrentava a Venezuela pela fase de grupos da Copa América quando, aos 27 do segundo tempo, a então promessa do Grêmio foi chamada pelo treinador Vanderlei Luxemburgo para entrar em campo. O craque precisou de apenas três minutos para anotar um belo gol, após chapéu no zagueiro Rey. Tão memorável quanto a jogada de efeito, o bordão “olha o que ele fez”, improvisado na cabine de transmissão, se consagrou no imaginário popular de tal forma que sintetiza a carreira do narrador Galvão Bueno. Não sem motivo, foi escolhido pelos diretores Gustavo Gomes e Sidney Garambone como subtítulo da minissérie documental Galvão, disponível no Globoplay.
As cinco palavras, evidência de incredulidade, ganham dupla conotação ao longo dos cinco capítulos. Fugindo de tom laudatório, que transformasse seu protagonista em herói, “olha o que ele fez” pode ser lido também como espanto, até mesmo decepção, diante de atitudes que afetaram negativamente as trajetórias de outros profissionais. Talvez quem melhor traduza essa ambiguidade seja Renato Ribeiro, diretor de esportes do Grupo Globo: “genial e genioso”. Neste sentido, Gomes e Garambone por vezes retiram Galvão do “centro das atenções”, como ele se sente mais confortável – nos termos de Joana Timotheo, diretora de eventos esportivos da emissora –, para abrir espaço a outras vozes. Em forte depoimento, por exemplo, o ex-volante Alemão – acusado ao vivo de afrouxar a marcação em Maradona, seu companheiro de clube – afirma não atribuir “a mínima importância” ao arrependimento demonstrado pelo narrador, já que nunca foi procurado fora das câmeras.
Como o documentário deixa claro, afinal, Galvão é sobretudo uma figura midiática, orgulhosa, que “não pede desculpas” (também de acordo com Timotheo). Em cena de destaque, quando visita o ex-jogador Zinho, a artificialidade do encontro não deixa dúvidas: antes mesmo de a câmera adentrar sua casa, o entrevistado já veste uma lapela, sem esconder a teatralidade daquele pedido de perdão. Ainda assim, um instante de sinceridade emerge quando Zinho recorda o impacto dos comentários negativos em seu pai, morto dois anos antes das gravações. Outros antigos desafetos, como o ex-piloto Nelson Piquet – ressentido pela preferência por Ayrton Senna –, o jornalista Renato Maurício Prado – demitido do SporTV após discussão ao vivo –, o ex-treinador Felipão – decepcionado com o editorial da Globo após o 7 a 1 – e o jogador Neymar – alvo de muitas críticas –, foram convidados, mas não aceitaram participar.
Quando, de outro modo, Gomes e Garambone reconstituem a vida e a carreira do biografado, evitam individualizar méritos e conquistas. Em interpretação do jornalista Paulo Vinícius Coelho, Galvão Bueno era “o cara certo, na hora certa, no lugar certo”, que “se tornou a voz do Brasil” ao narrar três finais consecutivas da seleção em Copas do Mundo. A este elemento fortuito, mas nunca desprezível, soma-se um método de trabalho muito peculiar, que seu antigo colega Walter Casagrande define como uma descarga de adrenalina. Para imprimir a emoção em sua voz, o próprio Galvão precisa estar agitado, o que levava o ex-comentarista de arbitragem Arnaldo Cezar Coelho a provocá-lo quando percebia a tranquilidade do amigo. A importância da equipe ao seu redor, por sinal, é reconhecida no último episódio, quando o documentário acompanha a transmissão da final da Copa do Mundo de 2022, cujos bastidores mostram o narrador pedindo e recebendo ajuda, como na confirmação dos autores dos gols.
Em termos de imagens, por fim, apesar de sua estrutura tradicional (“cabeças falantes” e arquivos), a série esforça-se para expressar visualmente a itinerância do protagonista, acostumado a não ter residência fixa (aos 17 anos, já tinha morado em quatro cidades e com quatro famílias). Desde a primeira sequência, uma montagem de Galvão atravessando portas em diferentes cidades – Candiota (RS), município onde vive hoje; Yokohama (Japão), sede do pentacampeonato da seleção; Londrina (PR), cidade de sua esposa; Doha (Catar), palco de sua última Copa –, somos convocados a percorrer cenários indissociáveis deste personagem que odiamos amar ou amamos odiar.
(Publicado originalmente na coluna "Esquina do Esporte", da Veja Rio, em 09.06.2023)