Críticas


A VERDADEIRA DOR

De: JESSE EISENBERG
Com: JESSE EISENBERG, KIERAN CULKIN, JENNIFER GREY
25.02.2025
Por Maria Caú
Um filme sobre dramas familiares que não cede à fórmula convencional conflito-catarse

Dois primos de personalidades contrastantes embarcam numa dessas questionáveis excursões turísticas formatadas para abarcar marcos do Holocausto. Nessas viagens, descendentes de vítimas e sobreviventes, interessados na história das grandes tragédias coletivas e (fatalmente) toda sorte de curiosos podem ter acesso a uma espécie de arqueologia da dor ao mesmo tempo em que talvez imaginem manter distância emocional segura desses vestígios, já que visitam o sofrimento extremo na condição de turistas. Este mote poderia soar pouco inspirado, ainda mais se unido à clássica (e por vezes previsível) mecânica de repulsão e atração entre polos opostos de um mesmo contexto familiar. De fato, os dois primos seguem à risca essa dinâmica e suas interações caminham na corda-bamba entre a intimidade indelével de irmãos e uma sensação iminente de conflito prestes a explodir. A diferença aqui é que, em seu segundo longa-metragem como diretor e roteirista, Jesse Eisenberg conduz a trama optando sempre pelo caminho menos óbvio. Em vez de termos a construção gradual de um choque entre os dois primos, que naturalmente explodiria numa cena de conflito aberto e levaria à reconciliação lacrimosa, a trama recusa terminantemente a catarse. Construindo habilmente um filme sobre dor (em realidade, um filme sobre dores: familiar, histórica e pessoal) em que não há catarse possível, Jesse Eisenberg cria uma narrativa que lida com uma das facetas mais difíceis da vida, este lugar em que há tanta dor que não levará ninguém à superação vitoriosa. Se carregar a dor (a nossa e a dos outros), circunavegá-la, tentar em vão sufocar seus golpes e acabar repetindo seus rituais e encenações próprios é parte inextricável da vida, esse processo é pouquíssimo representado no cinema. Eis o triunfo e a magia de A verdadeira dor.

A tradução do título acaba eliminando uma dubiedade que revela em si o tom do filme, de uma fina ironia. No original, A Real Pain – uma dor verdadeira – faz alusão também a expressão “a real pain in the ass”, utilizada para se referir a alguém particularmente irritante ou difícil de conviver, a descrição perfeita de Benji, personagem interpretado com maestria por Kieran Culkin. Benji é um rapaz extremamente carismático, capaz de conquistar a todos com uma espontaneidade vibrante, mas também tido a episódios de raiva e depressão. Em oposição, David, interpretado pelo próprio Eisenberg, é um tipo alleniano: ansioso, metódico, inseguro, mas também inteligente, sensível e conciliador. A trama é conduzida pelos diálogos entre os dois primos, que sublinham suas diferenças sem recair no óbvio e muitas vezes produzem ótimas inversões de expectativa, como o momento em que Benji assiste a um vídeo do filho pequeno de David, que demonstra sua fascinação por arranha-céus. A disparidade entre o duo, que resolveu fazer a viagem por conta da morte da avó de ambos, uma judia polonesa sobrevivente do Holocausto que tinha com Benji uma relação bastante próxima, e os outros membros do grupo fica evidente, o que não apenas funciona para criar conflito, mas acaba elaborando sobre a amplitude de experiências que podem levar alguém a se engajar nesta inusitada forma de turismo. Há o casal de aposentados que parece agir como uma só entidade, uma mulher de meia idade que busca se reencontrar após uma separação, um sobrevivente do genocídio de Ruanda que se converteu ao judaísmo e o minucioso guia, que, não sendo de ascendência judaica, se preocupa em justificar seu posto a cada passo, entre orgulhoso e culpado, o que produz bons momentos de humor.

A partir deste panorama, a narrativa se move de forma pendular, emulando os estados de euforia e depressão de Benji, que passa abruptamente de entusiasta da viagem (aqui destaca-se a cena em que ele convence toda a trupe, menos o atônito primo, a posar de maneira jocosa frente ao Monumento ao Levante do Gueto de Varsóvia) a seu detrator (questionando a falta de solenidade diante de túmulos de um cemitério local ou o fato de que a excursão inclui acomodações na primeira classe de um trem que os levará às cercanias de um campo de concentração). De maneira análoga, o tom do filme se altera subitamente, da comédia juvenil e física ao drama familiar, obrigando o espectador a se ajustar a esses rompantes como quem convive com alguém que passa pelo luto. Esses extremos são equilibrados por uma montagem eficiente, entrecortados por pequenas cenas que mostram a intimidade entre os primos, com eles dividindo o quarto, dormindo lado a lado, emprestando um para o outro um tubo de pasta de dentes; em todos esses momentos, o desconforto de David, que parecer tratar Benji como uma bomba-relógio preste a explodir, permanece no subtexto. E é justamente na única ocasião em que se revela para o grupo que se entende que a estabilidade de David é a fachada de um homem que, preocupado com ser o esteio da família, não consegue se ver no direito de acessar a própria dor. “É difícil sofrer de modo simpático”, diz o narrador de Laços, romance do italiano Domenico Starnone. Na obra de Eisenberg, ambos os protagonistas suscitam empatia e antipatia em diferentes momentos, parecendo feitos do tecido das pessoas reais, que sofrem, naturalmente, de modo antipático e disruptivo.

Apesar do sofrimento, em A verdadeira dor, os dois personagens centrais estão sempre em movimento: apressados num aeroporto, a bordo de um táxi, fugindo do fiscal num trem, frequentemente atrasados e afoitos. Eles estão também, de certa forma, imobilizados, vivendo um luto pessoal que se conecta a uma dor histórica e familiar muito maior e mais intensa (se há medida comparativa possível para sofrimentos diversos), que os leva a questionar o direito a elaborar sobre o próprio sofrimento, comparativamente banal diante do que os seus antepassados passaram (e, por isso, talvez sentido como ilegítimo). A direção de Eisenberg aposta na simplicidade e na força das atuações, ressaltando a incongruência desses falsos movimentos (as sequências que abrem e fecham o filme, ambas no mesmo aeroporto, também seguem neste sentido). Apenas a trilha sonora, quase onipresente, parece excessiva, pontuando demais os sentimentos num filme que, de modo geral, não o faz. Nesta jornada (turística, pessoal, familiar, histórica) através do sofrimento, somos obrigados a nos questionar: A que espaço de dor temos direito? Qual dor somos forçados a carregar? Qual dor nos sentimos impelidos a expressar ou esconder? Afinal, quais dessas dores são verdadeiramente nossas?




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Outros comentários
    5380
  • Marisa Aragão
    27.02.2025 às 03:58

    Como de costume Vc agrega conteúdo e valoriza o que tem valor intrínseco trazendo o leitor pra dentro do filme. Só a trilha sonora unipresente da forma como interage ironicamente com a imagem mereceu maior atenção nesse viés. Considero o filme redondo no que escrevia como se propõe. E as verdadeiras dores à serem lidas de nossas diferentes maneiras. Sua crítica instiga revisões pra quem aprecia filigranas e reverencia a fina linguagem woodyalleniana. Vou me deliciar vendo de novo!
  • 5381
  • Solange Berman
    27.02.2025 às 05:33

    Que texto lindo! Esse filme me pegou de jeito. E aquela pedra que o David coloca na entrada de sua casa, aai... memória concreta da dor