Críticas


Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

De: CLOHÉ ZHAO
Com: JESSIE BUCKLEY, PAUL MESCAL, NOAH JUPE
10.01.2026
Por Luiz Fernando Gallego
A proposta romântica de abordar grandes obras de arte com ênfase em aspectos biográficos do artista é empobrecedora. Os comoventes minutos finais ajudam a tolerar tal tese.

Há uma passagem no mais recente filme da diretora Chloé Zhao (Oscar por “Nomadlands”, 2020) em que a mulher de William Shakespeare (Jessey Buckley), ao assistir uma encenação de “Hamlet” no Globe Theater, pergunta “o que o nome de meu filho está fazendo aí?”. A resposta, segundo o roteiro, já vinha sendo desenvolvida antes desta cena que pretende confirmar a “tese” defendida pelo filme. De fato, Shakespeare e Anne Hathaway (nome de solteira da mulher que virou ‘Agnes’ no filme) tiveram um filho, ‘Hamnet’, homófono de ‘Hamlet’ - e que seria outra forma do nome que, hoje, é mais conhecido. Tal coincidência já permitiu – e, portanto, o que o filme defende não é nenhuma novidade – antigas especulações sobre uma hipotética relação entre eventos da vida pessoal de Shakespeare e a motivação íntima que ele, supostamente, teria para ter escrito sua obra máxima.

Freud não deixou isso passar batido. E ainda que tenha abordado com enorme poder de convencimento alguns aspectos psicológicos de vários personagens shakespearianos, o primeiro psicanalista também acreditou na falácia preconceituosa de que a obra atribuída a Shakespeare não podia ter sido escrita pelo “homem de Stratford”. Para Freud, seguindo outros, um ator do Globe Theatre tinha seu nome usado pelo verdadeiro autor de tantas obras-primas: um nobre com acesso a mais e melhor educação cultural, em vez de uma pessoa de origem nada aristocrática. Ou seja: a descrença de que tal genialidade poderia ser apanágio de um homem "sem berço".

A pergunta de ‘Agnes’ mencionada acima, entretanto, é respondida de outro modo pelos estudiosos das origens buscadas por Shakespeare para os enredos que desenvolvia: sua peça mais famosa segue de perto a trama da lenda dinamarquesa de ‘Amleth’ (outro nome assemelhado a ‘Hamlet’). Este, seria um príncipe medieval que presenciou o assassinato do pai por seu tio e fingiu enlouquecer para não ser morto como queima de arquivo. Várias reviravoltas desta narrativa foram mantidas no texto de Shakespeare, outras tantas foram acrescentadas por ele, mas, principalmente, os personagens ganharam maior complexidade emocional.

Como de hábito, ele se apropriava de histórias já conhecidas e as enriquecia enormemente. No caso, uma narrativa de vingança como tantas ganhou dimensões e profundidade psicológicas - além de mais ambiguidade - emprestadas aos personagens que deixaram de ser apenas tipos básicos como “herói-e-vilão”. Além de refletir questões políticas de sua época, tais como “quem iria suceder no trono a idosa rainha Elizabeth sem filhos”? Mas o tratamento dado pelo artista à questão sucessória extrapola tais circunstâncias ao problematizar outros aspectos atemporais sobre o poder (como “o que seria um bom governante?”), permanecendo atual mais de quatrocentos anos depois de escrita.

A proposta da diretora (e co-roteirista com a autora de um livro de ficção sobre o casal Shakespeare) sobre uma suposta motivação, paternal e conjugal, para que ele escrevesse seu maior (em todos os sentidos) texto, entretanto, é bem mais simples, partindo da assonância (ou mesmo igualdade) dos nomes ‘Hamnet’ e ‘Hamlet’ que apenas teriam redação e pronúncia diversas. Mas, mesmo que tal especulação seja levada em conta, a elaboração da grande obra teatral é bem mais complexa.

Para atingir sua tese, que ganha relevo nos excelentes minutos finais, o roteiro se estende em muitos aspectos inventados sobre Agnes (ou Anne Hathaway - sim, o nome de solteira da esposa do poeta é homônimo ao da atriz de cinema atual) e como se deu o casamento com o jovem William. Sabe-se que ela contava 26 anos e ele 18 quando casaram; e que já estava grávida da primeira filha do casal - o que, no entanto, não era tão raro assim, desde que houvesse uma forma prévia de promessa entre os noivos: de que haveria união oficial posteriormente. A hipótese de um casamento forçado é rebatida por historiadores, mas de fato, o que não era mesmo tão comum era o marido ser mais jovem. Os atores Paul Mescal (Shakespeare) e Jessey Buckley quase chegam lá: ela é seis anos mais velha – mesmo que não aparente.

A questão é que o filme se estende bastante em muitos detalhes familiares antes do clímax: muitos são inventados e gratuitos, ainda que muitos sejam comprovadamente históricos - como o evento que teria (para o filme) desencadeado a escrita da “Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, concluída, provavelmente, em 1600, dois anos antes da morte da 'Rainha Virgem', e quatro anos depois do episódio real que o filme mais valoriza como maior deflagrador para sua composição.

Shakespeare teria mesmo tido inspiração devido ao nome ‘Amleth’ ser parecido com o de seu filho? Ou o que lhe interessou foram as questões sucessórias sobre o poder da lenda dinamarquesa que havia ganhado forma impressa uns cem anos antes do “Hamlet”?

Consta como realidade histórica que o próprio Shakespeare interpretou o papel do pai do príncipe Hamlet no palco do "Globe". O pai surge como um fantasma pedindo vingança por seu assassinato. Isto vai ser usado ficcionalmente pelo filme como se fosse uma elaboração do relacionamento de Shakespeare com sua mulher e seu filho.

Antes disto, ao longo de cenas que narram o dia-a-dia da família em Stratford, quando Shakespeare ainda não havia se estabelecido em Londres, surgem algumas frases que o espectador poderá reconhecer como pertencentes a obras posteriores a “Hamlet”, um piscar de olho desnecessário aos que identificarem tais “citações”. Assim como soa anacrônico um aceno feminista desta narrativa quanto à inconformidade cada vez maior da esposa em relação à vida do marido que ficava longos períodos longe de casa. Esta caracterização vai servir ao desfecho que, de qualquer modo, nos vinte minutos que concluem o filme, valem a espera de mais de hora e meia até os momentos finais. É quando Jessey Buckley chega ao auge de sua composição, principalmente centrada em expressões faciais, e também vemos um Paul Mescal brilhante no papel do ‘Fantasma” no palco do “The Globe”.

A atriz vem sendo justamente louvada por sua interpretação, cabendo ainda ao ator – que nem sempre vem sendo tão citado - outros grandes momentos: logo no início quando conta para ‘Agnes’ a história de Orfeu e Eurídice, sua narrativa é excepcional. Assim como quando aparece dirigindo o ator que fará o papel de Hamlet na estreia da peça, fazendo-o repetir uma fala inúmeras vezes. Ao mostrar como quer que a frase seja dita, dá vontade de ver Mescal interpretando Hamlet por completo.

Também está ótimo o jovem Noah Jupe que faz o príncipe no palco nas cenas derradeiras da peça (e do filme). Este ator é irmão do menino Jacob Jupi que faz ‘Hamnet’-criança. E a semelhança entre os dois serve bem à “tese” do filme.

Finalmente, por mais que se possa identificar aspectos biográficos do artista em sua obra, a romantização reducionista, como a que faz este filme, acaba sendo uma abordagem empobrecida da criação artística, mas é um tipo de ficção que agrada ao grande público - e tem servido a inúmeros filmes, alguns melhores (como“Amadeus”, de Milos Forman) e outros, nem tanto.

Este “Hamnet: a vida antes de Hamlet” é salvo pelo desfecho, desde que o espectador não tenha achado o que veio antes muito esticado (nem sempre com justificativa para atingir sua demonstração) e aceite a proposta romântica de abordar grandes obras de arte por este viés. Os atores ajudam muito, a direção com enquadramentos elegantes, a fotografia e a música (usada, ainda bem, sem exageros) também colaboram para o todo, com melhor resultado nos momentos finais.



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