Críticas


BUGONIA

De: YORGOS LANTHIMOS
Com: Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis
28.01.2026
Por Luiz Baez
É mais fácil imaginar alienígenas do que o fim do capitalismo

É conhecida a máxima segundo a qual seria mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Em uma sequência histórica marcada pelo declínio das utopias, o horizonte parece estreitar-se diante de um presente vendido como única alternativa. Nesse contexto, a ficção – entendida não como mentira, mas estrutura de apreensão da realidade – pode tanto ajudar a vislumbrar outros possíveis quanto, ao contrário, criar formas despolitizadas, desconectadas de seus referentes, que capitulam os anseios por ruptura. Em raros casos, porém, há um curto-circuito em que esses polos se chocam, e a suspensão do sentido imediato quebra a ordem da representação, provocando questionamentos. É o caso de Bugonia, filme em que o cineasta grego Yorgos Lanthimos adiciona uma camada de literalidade ao discurso apocalíptico e paranoico quando afirma: é mais fácil imaginar alienígenas do que o fim do capitalismo.

A narrativa acompanha Teddy (Jesse Plemons), um operário e entusiasta da apicultura enredado em uma trama de teorias da conspiração cujos argumentos ele escuta em rádios clandestinas, quando pedala para o trabalho, e pesquisa no computador ao retornar. Sua atenção e seu tempo livre foram tão capturados, e seus ressentimentos tão deslocados para causas fantasiosas, que ele se convence de que a presidente da fábrica, Michelle (Emma Stone), é na verdade uma extraterrestre em vias de destruir o planeta. Elabora então um plano para prendê-la, de modo a forçar uma confissão, e é neste momento que Lanthimos deixa claro a qual ponto de vista tem acesso o espectador. O sequestro, afinal, ocorre de maneira tão absurda e inverossímil que não poderia existir em outro espaço a não ser o alegórico, filtrado por um conspiracionista, assim como a distorção de significados de Dente canino não poderia se sustentar senão em uma casa hermeticamente controlada pelo pai.

Nesta lógica, mencionar a relação do protagonista com as abelhas, longa de constituir mero detalhe, justifica o título: acreditava-se, no período medieval, que esses insetos se multiplicavam por geração espontânea em um processo chamado “bugonia”. Embora ilusória, por óbvio, essa explicação atendia à vontade de verdade de um grupo inserido em determinado momento histórico, tal qual a noção de conflitos interplanetários responde contemporaneamente ao sofrimento de Teddy, que não só conhece a reprodução assexuada, como também a explica ao primo em voz off inicial. Este mecanismo em que ele apresenta seu mundo a um segundo personagem, e por conseguinte ao público, se repete ainda algumas vezes. O diálogo com uma colega torna plausível sua revolta coletiva contra as condições profissionais adversas, ao passo que o uso de flashbacks transparece suas motivações individuais.

Poderia portanto haver um grau primordial de identificação, não fossem os seus métodos truculentos. A mesma repulsa que Lanthimos provocou, durante a maior parte de sua obra, ao recorrer a idiossincrasias como atuações desafetadas e distorções angulares, diluídas neste novo filme, é sentida agora em relação a um protagonista a quem os incautos se julgam moralmente superiores. E eis a maior armadilha: na tentativa de escapar da visão turva e ideológica de um trabalhador, as lentes da compaixão podem migrar para a liderança feminina, renunciando à primordial tarefa de imaginar outros possíveis. Ora, Michelle empodera as mulheres (ocupa um grande cargo), abraça a diversidade (porque ajuda nas vendas) e autoriza horários flexíveis (mas não os incentiva, claro). Em fina ironia, Bugonia mostra como basta que o capital vista novas perucas para que suas desigualdades sociais pareçam tão naturais quanto a hierarquia de uma colmeia. A imperatriz agora se chama CEO: senta-se à mesa e come de garfo e faca.


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