
Os irmãos Josh e Bennie Safdie e o roteirista Ronald Bronstein, colaborador habitual da dupla, fazem parte de uma talentosa geração de cineastas independentes que surgiu em Nova York no início dos anos 2000. No grupo estão também Sean Baker (vencedor da Palma de Ouro e do Oscar de Melhor Filme com “Anora”) e Antonio Campos (filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes, diretor dos ótimos “Afterschool”, “Simon Killer” e “Christine”). A ambientação de histórias que se desenvolvem em meio ao caos urbano da cidade se tornou uma marca registrada dos dois, influenciada por cronistas nova-iorquinos como Scorsese, Cassavetes e Abel Ferrara, em filmes como “Bom Comportamento” e “Joias Brutas”.
Em 2025, eles seguiram caminhos separados com obras que tratam de desilusões de atletas relacionadas ao sonho americano: Bennie Safdie escreveu e dirigiu sozinho “Coração de Lutador”, sobre a trajetória do lutador de MMA Marc Kerr, enquanto seu irmão Josh realizou “Marty Supreme”, levemente inspirado no ex-campeão de tênis de mesa Marty Reisman (1930-2012), e manteve a parceria com Bronstein no roteiro.
A grande diferença entre os filmes é que “Coração de Lutador”, embora equilibre o drama humano do sujeito viciado em opióides com os bastidores do esporte, não oferece muito além do que tantas biografias hollywoodianas já mostraram. Já em “Marty Supreme” o tênis de mesa é mero pretexto para que Josh Safdie subverta expectativas envolvendo o sonho americano em cinebiografias esportivas.
A primeira escolha acertada: se livrar das amarras do compromisso com o factual. Marty Reisman virou Marty Mauser no personagem interpretado com brilhantismo por Timothée Chalamet. Ao longo do filme o espectador se pergunta se a sucessão de acontecimentos absurdos envolvendo o protagonista teria acontecido de verdade. Mas, tirando o fato de que Reisman se apresentou como atração complementar em excursões dos Harlem Globetrotters, quase tudo o que se vê na tela é fruto da criatividade de Safdie e Bronstein, em um dos roteiros originais mais surpreendentes e fascinantes da atual safra cinematográfica.
A história se passa no início da década de 50, quando o jovem Marty Mauser já era um dos expoentes do tênis de mesa nos Estados Unidos, mas ainda trabalhava como vendedor em uma sapataria nova-iorquina. Visualmente, o registro é bastante realista. A fotografia de Darius Khondji privilegia os tons escuros e monocromáticos em uma atmosfera claustrofóbica que só vai se desfazer quando a ação se transfere para o Japão. O realismo é quebrado já a partir dos créditos de abertura mostrando uma fecundação (!) ao som da música “Change”, sucesso da banda inglesa Tears For Fears nos anos 80. Até o fim do filme, nove meses depois, com outra canção do Tears For Fears (“Everybody Wants To Rule The World”), a trilha sonora passeia por diversas décadas e estilos, mas privilegia hits oitentistas. Em entrevistas, Safdie explicou a escolha como uma forma de comunicar que a história é atemporal.
É o tipo de liberdade que permite aos roteiristas, que são judeus e se valem do típico humor autodepreciativo, falarem muito sério no único flashback: a cena em que, numa conversa informal, o adversário e parceiro de Mauser, Béla Kletzki (Géza Röhrig, de “O Filho de Saul”), relembra seu passado de prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz. Sua descrição detalhada de como burlava a opressão nazista para alimentar prisioneiros famintos é ao mesmo tempo uma aula de cinema e um soco no estômago, um interlúdio que pouco serve à trama, mas que nos refresca a memória em tempos de crescente intolerância racial.
A construção narrativa de “Marty Supreme” se assemelha a uma partida de ping-pong, com jogadas vertiginosas, arriscadas e surpreendentes. Aos poucos o espectador percebe que o que interessa é o retrato desse sujeito cuja obsessão com o sucesso é impetuosa, nada calculada, o que o coloca à beira do abismo em inúmeras situações. A imprevisibilidade é uma arma dos realizadores para prender a atenção do espectador o tempo inteiro, já que fica impossível imaginar cada passo seguinte de Marty, seja em suas fraudes golpistas – que podem envolver o sequestro do cachorro do gângster vivido por Abel Ferrara -, seja na relação amorosa entre ele e uma atriz de cinema (Gwyneth Paltrow), casada com um milionário empresário do ramo de canetas.
Indicado a nove Oscars, incluindo Melhor Filme, Direção, Ator, Roteiro Original e Edição, “Marty Supreme” pode não sair vitorioso em meio a tantos bons concorrentes na premiação deste ano (ainda mais por conta de acusações recentes envolvendo o comportamento de Josh Safdie no set de filmagem), mas é sem dúvida um dos melhores filmes do ano.