
Enquanto alguns filmes procuram narrar uma vida; Sonhos de trem parece preferir escutar como uma vida reverbera. Isso traz quase uma ironia metalinguística, já que a narração em off é quase onipresente. A história de Robert Grainier — lenhador e trabalhador das ferrovias no início do século XX — é apresentada como uma sucessão de estações: encontros, deslocamentos, intervalos longos demais para caberem em explicações. O filme entende que o tempo não se comporta como linha reta quando a matéria é lembrança. Ele avança, recua, cria lacunas, e pede ao espectador o gesto mais honesto diante de uma existência: aceitar que nem tudo vem com legenda.
Essa opção tem um efeito imediato. Em vez de prender a atenção com viradas e decisões espetaculares, a narrativa organiza o interesse pela pressão silenciosa do cotidiano. O trabalho pesa. O corpo pesa. O mundo pesa. Robert é um personagem de poucas palavras, e o roteiro não tenta driblar isso com falas de efeito. A interioridade é construída por presença: o modo como ele observa, como mede o espaço antes de entrar, como guarda coisas para si por hábito e por sobrevivência. A atuação de Joel Edgerton trabalha nessa frequência baixa, porém intensa; uma intensidade que nasce de contenção, não de explosão.
O trem, aqui, não é apenas cenário ou símbolo bonito. Ele funciona como medida concreta de mudança. Trilhos e pontes são o que liga lugares, mas também o que rasga a paisagem e redefine quem manda nela. Quando Robert participa da construção dessa infraestrutura, o filme torna visível uma contradição que atravessa seu protagonista: viver de erguer o futuro implica consumir o presente. Árvores caem, rios são domados, o mapa é reescrito. A modernização entra como promessa e como custo. Mesmo quem não está interessado em debate histórico pode sentir isso, porque a encenação transforma tudo em experiência sensorial: o som do metal, a repetição do esforço, a escala das obras e da natureza diante do corpo humano.
A direção de Clint Bentley, sobretudo, aposta na clareza da observação. Em muitos momentos, a câmera permanece tempo suficiente para que a cena ganhe textura: um gesto termina, o silêncio aparece, a consequência começa a se formar. Isso faz diferença porque o filme não admite — como se tivesse vida própria — que o espectador passe correndo por emoções complexas. Há dor, há ternura, há estranhamento, e tudo isso precisa de duração para existir sem virar mensagem. Quando a obra prefere a paciência, ela recusa a pressa como moral. É uma ética de olhar: não acelerar a vida para torná-la palatável.
Por sua vez, o já citado recurso da narração (na voz de Will Patton) poderia soar como muleta em outro contexto, mas aqui funciona como um segundo plano de realidade: o que se diz não substitui o que se vê; amplia. A narração marca a passagem dos anos e, ao mesmo tempo, sugere que essa vida só pode ser contada depois, com atraso, como quem tenta organizar a memória sem vencer o que ela tem de indomável. É um comentário discreto sobre biografias anônimas: muitas só se tornam história quando alguém decide prestar atenção nelas.
Há, no centro do filme, um núcleo doméstico que não é tratado como pausa entre aventuras. A relação com Gladys (Felicity Jones) tem o peso de uma fundação: ela oferece calor, direção e cotidiano para um homem que pertence ao trabalho e ao deslocamento. Essa dinâmica sustenta um conflito simples e devastador: como manter intimidade quando a vida é organizada por distâncias? O filme não resolve isso com psicologia falada; resolve com escolhas de presença. Quando os dois estão juntos, o mundo parece caber num espaço menor, em planos mais fechados, em closes delicados. Quando se separam, o enquadramento e o som devolvem o tamanho do vazio.
Sonhos de trem também tem coragem de não transformar suas sombras em passagens educativas. Em determinado momento, Robert presencia a violência racista contra um trabalhador chinês. A cena não aparece para cumprir cota de contextualização histórica; ela se instala como marca ética. O filme entende algo difícil de encarar: não é preciso ser o agente direto da brutalidade para carregar suas consequências. Assistir, calar, seguir viagem — tudo isso também participa do tecido do mundo. A obra coloca essa ferida sem didatismo e sem alívio, como parte do que Robert acumula e nunca consegue resolver completamente.
Ainda, o modo como a montagem lida com as décadas é decisivo. Saltos no tempo surgem sem fanfarra, e a construção do filme confia na inteligência do público para preencher lacunas. Essa estratégia faz a narrativa se aproximar do funcionamento real da memória: lembramos de cenas soltas, de atmosferas, de detalhes que voltam sem aviso. O que liga os momentos não é apenas causa e efeito; é repetição, eco, sensação. Um som retorna. Um lugar reaparece. Um gesto se repete com outra idade. A vida, assim, ganha a forma de um mosaico — e é justamente esse mosaico que impede o melodrama fácil, porque a emoção não vem pronta. Ela se forma no encontro entre pedaços.
O filme, de todo modo, tem sua grande força na relação com a natureza e em como a fotografia de Adolpho Veloso a expõe. Florestas, neve, rios e fogo não estão ali para embelezar. Eles funcionam como agentes: acolhem, ameaçam, indiferem. Essa é escala, nunca crueldade. Ao filmar o ambiente como algo maior do que os personagens, Veloso e, claro, Bentley reduzem a tentação de heroísmo. Robert não domina o mundo; ele tenta atravessá-lo. E, quando o filme mostra beleza, essa beleza não vem separada do risco. Há sempre um lembrete de que o mesmo cenário que encanta também pode destruir.
Essa mistura de lirismo com materialidade ajuda a entender por que o filme permanece depois de terminar. Ele não busca o impacto do momento grandioso isolado, e sim o acúmulo de pequenas pressões: o peso do trabalho repetido, a sensação de estar sempre de passagem, o desejo de pertencimento que nunca se fixa. A obra tenta, novamente como se fosse viva, devolver ao espectador uma percepção incômoda e verdadeira: a vida de alguém pode ser profundamente dramática sem nunca virar espetáculo.
O resultado é um cinema que pensa sem levantar a voz. Sonhos de trem oferece imagens fortes, mas evita a manipulação. Ele constrói emoção por precisão — e precisão, aqui, significa escolher o que mostrar, por quanto tempo mostrar, e o que deixar fora para que o silêncio também fale. Ao final, a história de Robert não se impõe como exemplo nem como lição. Ela se impõe como experiência: a de um homem atravessado pelo progresso, pela perda e pela memória, tentando encontrar alguma forma de dignidade num mundo que muda sem pedir licença.