Críticas


O CASO DOS ESTRANGEIROS

De: BRANDT ANDERSEN
Com: YASMINE AL MASSRI, YAHYA MAHAYNI, OMAR SY, ZIAD BAKRI, CONSTANTINE MARKOULAKIS
25.02.2026
Por Luiz Fernando Gallego
A proposta é a de que cada um de nós coloquemo-nos, de fato, no lugar de imigrantes estrangeiros.

Dois anos depois de sua primeira exibição no Festival de Berlim, chega aos Brasil e a outros países “I was a Stranger”, primeiro longa-metragem do estadunidense Brandt Andersen.

Logo na abertura, o filme exibe um pequeno trecho (infelizmente mal traduzido) da peça elisabetana “Sir Thomas More” que retrata o autor de “A Utopia” (também uma importante figura política no tempo de Henrique VIII). O texto da peça sofreu acréscimos de vários autores, sendo um deles, William Shakespeare. É exatamente de Shakespeare a passagem conhecida como “O Caso dos Estrangeiros” em que Morus, como personagem, questiona enfaticamente os londrinos que armaram uma revolta contra imigrantes.

Em outra tradução: “Imaginai vós, os miseráveis imigrantes

com seus bebês às costas, arrastando suas pobres tralhas,

caminhando até os portos e praias para serem deportados

enquanto vós, agindo como reis em vossos desejos,

tendo a autoridade sido silenciada por vossa baderna

guiada apenas pela arrogância de vossas opiniões,

o que teríeis a ganhar?

Esta é a situação dos estrangeiros.

E esta é a vossa gigantesca desumanidade!




Na verdade, a interferência de Shakespeare na peça é muito mais longa, são três páginas manuscritas. Além de estudiosos terem identificado a grafia do autor de “Hamlet”, a retórica tem parentesco com outras passagens de suas peças. Pode-se até encontrar o mesmo recuso da famosa fala de Marco Antonio em “Julio César" que inverte o foco inicial para outro no final.

Aqui, a situação de estrangeiros sendo expulsos de Londres vai sendo modificada para a hipótese que imagina os que queriam expulsá-los na posição de estrangeiros em outra nação: “E digamos, então, que, pelas vossas transgressões, o Rei apenas vos banisse... Para onde iríeis? Qual país vos daria abrigo? França, Flandres, alguma província alemã? Espanha ou Portugal? Qualquer lugar que não seja parte da Inglaterra e onde vós sereis... estrangeiros! Encontrareis uma nação que, explodindo em violência hedionda, não vos conceda um abrigo sobre a Terra, afiando facas contra vossos pescoços, desprezando-vos como cães, agindo como se Deus não vos houvesse criado? Como se os elementos do mundo não fossem também destinados ao vosso conforto, mas concedidos apenas aos outros? O que vós pensaríeis se assim fossem tratados? Esta é a situação dos estrangeiros e esta é a vossa gigantesca desumanidade!”.

O roteiro do próprio Brandt Andersen começa em Chicago na época em que o filme foi lançado, 2024, mostrando a faxineira de um hospital, seguindo-se um letreiro que informa “Oito anos antes em Alepo” para o primeiro de cinco episódios, “A Médica”. A Dra. Amira atende feridos de lados antagônicos da guerra civil, sendo duramente questionada pelas forças de Bashar al-Assad. Bombardeios e mortes de familiares obrigam-na a tentar fugir, situação que vai ecoar indiretamente no episódio “O Soldado”. No terceiro, uma espécie de “coiote” que atravessa pessoas em balsas precárias, por mar, tentando chegar à Grécia, traz o ator mais conhecido do nosso público, Omar Sy. Os dois últimos episódios enfocam a situação dos que tentam sair da Síria por mar, do ponto de vista deles, e na visão e esforços da Guarda Costeira grega para recolher náufragos. Um curto epílogo retoma a faxineira do início.

O filme é tenso e consegue mobilizar o espectador em relação a mais uma gravíssima tragédia humanitária de nossos dias. Levantar questões puramente cinematográficas ou do roteiro não seria muito pertinente face à proposta explícita do diretor; como seria de um purismo absurdo questionar alguns aspectos na estrutura da narrativa de “A Voz de Hind Rajab” (também em cartaz).

A proposta de “O Caso dos Estrangeiros", o filme, é a mesma do famoso texto shakespeariano: mobilizar - seja um leitor, seja um espectador - para que cada um de nós coloquemo-nos, de fato, no lugar de imigrantes estrangeiros. Em vez do recurso semi-documental de "A Voz de Hind Rajab", aqui, o roteiro é uma recriação ficcional de histórias plausíveis que podem ter acontecido de modo muito semelhante ao que se vê na tela. E, se alguma coisa lhe parecer “melodramática”, reflita: não é um melodrama: é uma tragédia tão real como a do outro filme que ficou mais conhecido.

Lamente-se que, rodado, provavelmente em 2023, ao mostrar uma imigrante nos EUA, mal ou bem, trabalhando, sem ser perseguida, denuncie como a situação dos imigrantes piorou para além dos fatos descritos na Síria (assim como em outros lugares).

Pena que o lançamento de “O Caso dos Estrangeiros” no Rio de Janeiro esteja restrito a poucas salas e horários...

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