Críticas


SIRÂT

De: OLIVER LAXE
Com: SERGI LÓPEZ, BRUNO ARJONA, STEFANIA GADDA
28.02.2026
Por Marcelo Janot
É impossível ficar indiferente ao filme, e isso é um baita ponto positivo.

Vi o filme "Sirât", de Oliver Laxe em Cannes ano passado, onde ganhou o Prêmio do Júri. Na ocasião escrevi que não sabia se tinha amado ou detestado. Ao revê-lo agora, sigo sem opinião definitiva. Poderia tentar entender quais as intenções do diretor-roteirista com um filme que parece uma mistura de “Mad Max”, “O Salário do Medo”, “O Céu Que Nos Protege” e “Round 6”. Por mais que, para a análise crítica, baste o que está na tela, sem a necessidade de se conhecer detalhes dos bastidores da produção, nesse caso excepcional, dependendo de como ele justificasse suas escolhas, elas poderiam se revelar estapafúrdias ou soluções geniais. Laxe diz preferir que o filme fale por si.

Ele está certo. Mas o impasse persiste. Afinal, se trata de um dos roteiros mais bizarros e estranhos com que me deparei nos últimos anos. Até a primeira metade do filme, é a história de um espanhol (Sergi López) que vai até o Marrocos procurar, na companhia do filho adolescente, a filha mais velha desaparecida há meses. Ele suspeita que ela esteja participando de raves de música eletrônica no deserto, e isso é tudo que se sabe dela, além do olhar triste em uma fotografia, sem qualquer referência ao passado.

Pai e filho passam então a peregrinar pelo deserto marroquino seguindo um grupo de espanhóis e franceses nômades que carregam grandes caixas de som em seus caminhões, a caminho de uma festa na Mauritânia. Até aí nada de novo: os percalços enfrentados (carro atolado, pneu furado, falta de gasolina) funcionam como jornada de autoconhecimento e diminuem a distância cultural e pessoal entre o pai de família e os outsiders.

Até que um acidente trágico, plausível, mas que acontece no momento mais inesperado possível, faz com que a história dê uma guinada radical. Outras tragédias passam a se acumular de maneira absurda. É quando somos levados a questionar onde estaria a conexão entre a sucessão de acontecimentos e a filosofia da cultura rave que está no cerne do filme. Tudo isso poderia ter acontecido tendo como pano de fundo, por exemplo, um festival de rock ou de samba?

Em um momento, os personagens enfatizam que “a música eletrônica não se escuta, se sente”. O filme reforça o aspecto sensorial através do efeito provocado pela vibração dos graves que emanam do sistema de som. Para a crítica, talvez seja importante encontrar metáforas que tentem justificar as escolhas delirantes – o título do filme, “Sirât”, de acordo com o Islam, se refere à ponte “fina como um cabelo e cortante como a mais afiada das espadas” que divide o inferno do paraíso e deve ser atravessada pelos mortos no Dia da Ressurrreição (Yawm al-Qiyamah).

Uma das últimas imagens é um close em uma grande caixa de som preta solitária no meio do deserto. A essa altura, dá até para enxergar uma analogia com o monolito kubrickiano de "2001, Uma Odisséia no Espaço". O ritmo bate estaca que sai da caixa seria um instrumento de conexão por uma inteligência superior alienígena, incompreendida pela civilização humana contemporânea? As ilações servem para mostrar que é impossível ficar indiferente a "Sirât". E isso é um baita ponto positivo em meio a tantos filmes esquecíveis lançados toda semana.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário