
O mais recente filme de Pedro Almodóvar, Natal Amargo, sem contar seus três primeiros longas (mais apreciados pela iconoclastia do que por suas qualidades cinematográficas) é um dos três filmes mais fracos do cineasta, uma enorme decepção vinda depois do tocante O Quarto ao Lado - do qual reproduz o maior defeito, que era a cena em que John Turturro fazia um discurso sobre ecologia e outras questões sérias atuais, mas sem relação com a trama central. Desta vez, há relação com um dos possíveis interesses de Almodóvar para escrever este insatisfatório roteiro: a questão ética da auto-ficção para com as vidas de outras pessoas usadas como base para a trama auto-ficcional. Mas isto é apresentado novamente em palavras, palavras, palavras, num diálogo nada cinematográfico entre Raul, um personagem alter-ego de Almodóvar (interpretado roboticamente pelo habitualmente eficiente Leonardo Sbaraglia) e a personagem de Aitana Sánchez-Guijón - que tem a única participação mais viva do filme, já que os demais personagens não ajudam muito os atores. Não despertam maior identificação com o espectador e chegam mesmo a soar desinteressantes.
No "roteiro dentro do filme", Barbara Lennie aparece sonambúlica como outra versão de Almodóvar: ela não consegue cativar como 'Elza', uma diretora de filmes em crise, tomada por enxaquecas terríveis, ataques de pânico e culpa em relação à morte de sua mãe. Seu namorado, bombeiro e stripper (Patrick Criado), é afetuoso e atencioso para com ela, reduzindo um pouco o estereótipo de mera fantasia sexual, mas praticamente some de cena lá pela metade da projeção, assim como não diz muito a que veio a amiga 'Patricia' (Victoria Luengo). Estes três, assim como outra amiga de 'Elza', uma moça em luto, são personagens do roteiro que 'Raul' está escrevendo - e que vai despertar a ira da produtora interpretada por Aitana.
É difícil saber qual o pior roteiro: o que 'Raul' escreve? Ou o que trata da crise de Raul e que leva à polêmica sobre apropriação de aspectos da vida de outrem para criar um enredo? Woody Allen foi bem mais feliz em Desconstruindo Harry. E mesmo com os problemas de A Má Educação, o próprio Almodóvar já se saiu melhor ali ao mostrar uma ficção espelhando outra.
O novo filme se arrasta e, fato inédito, pela primeira vez olhei para o relógio após uma hora e pouco de projeção num filme do diretor. O pior é a espécie de "defesa" que ele parece tentar fazer deste seu filme ao incluir nos diálogos uma espécie de valrização de obras "menores" de autores como Bergman e Fellini. Ao citar Fellini, não haverá cinéfilo que não lembre da crise criativa de 'Guido', o personagem de Marcello Mastroiani em "Fellini 8 1/2". Só que Fellini, se estava em crise criativa, deu a volta por cima e criou uma obra-prima sobre o tema. E olhem que seu filme seguinte, Julieta dos Espíritos, mostrou que Fellini estava mesmo em crise, repetindo-se e sem novas inspirações - e sem conseguir fugir ao que Bergman chamou da prisão de autores como Fellini - e como ele mesmo, Bergman - ao ficarem fazendo "filmes de Fellini" ou "filmes de Bergman".
Almodóvar parece ter entrado em algum tipo de crise após uma sequência de obras muito bem recebidas (Carne Trêmula especialmente, Tudo sobre minha mãe e Fale com ela), mas manteve a forma até que a crise se acentuou mesmo em A Pele que habito, Amantes Passageiros e Julieta, sendo que este último ainda pode ser visto como um filme "menor", mas satisfatório - e bem melhor do que os outros dois que vieram antes, seus piores resultados desde que abandonou a iconoclastia pela iconoclastia dos três primeiros filmes já aludidos acima.
O que também surpreende mal em Natal Amargo é a ausência do que ele conseguia, mesmo em dramas, inserir algum humor. Até há, mas poucas vezes - e isso desaparece ao longo do filme. Mesmo a música de Alberto Iglesias, desta vez soa intrusiva, ainda que tocada baixinho durante as cenas. E que se mostra menos bonita do que tantas vezes na habitual sequência final dos créditos.
Restam as cores, enquadramentos, cenários, paisagens, mais como envólucro bonito para um roteiro mal sucedido e autocomplacente.