Críticas


OBSESSÃO

De: Curry Barker
Com: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson
06.07.2026
Por Sihan Felix
Curry Barker faz do quadro uma cela para dois... e sufoca

O diretor Curry Barker filma a obsessão que dá título ao filme como quem tranca portas. Uma por uma, sem pressa, até que o mundo do filme caiba inteiro no espaço entre dois corpos próximos demais. Ele parte de uma intuição que me parece exata: a paixão doentia é uma aritmética de perdas. Some o trabalho, somem os amigos, some a rua lá fora... então sobra um rosto, enorme, no lugar de tudo. Barker leva essa conta a sério, e cada decisão técnica dele parece calculada para tirar alguma coisa de quem assiste.

A primeira porta que ele tranca é a própria tela. Filma em 1.50:1, um retângulo quase quadrado, e com isso amputa a visão periférica que décadas de tela larga nos ensinaram a dar por garantida. O horizonte some. Barker espreme os dois protagonistas numa moldura estreita demais, e eu senti isso no corpo antes de saber explicar: falta ar ali dentro e começa a faltar aqui fora. A proximidade forçada nasce como constrangimento de sala de espera e cresce até o pavor.

Dentro dessa moldura, Barker prega a câmera no tripé e deixa cada plano durar além do confortável. Nenhum reenquadramento, nenhum desvio; ele suprime um direito que eu nem sabia ter até sentir a falta. O olho fica sozinho com o trabalho sujo. Vasculha as sombras, volta à porta do fundo, tenta medir a distância entre o perigo que se adivinha nas bordas e o centro iluminado onde os corpos estão presos. Barker administra esse fora de quadro com um cuidado que muito diretor não dedica nem aos atores. E quando enfim deixa a violência entrar no plano, não corta. Segura a imagem com a paciência de um perito diante do corpo e me obriga a ver por inteiro o que a maioria resolveria numa elipse.

Com a luz, ele fecha o cerco. Corrompe o dia, cozinha os interiores num amarelo denso, de febre, e cava manchas de escuridão que engolem o que tocam sem devolver nada. Cozinhas, quartos, salas banais ganham textura de pesadelo em incubação. O contraste que ele arma come as feições do elenco e preserva na imagem só aquilo que a mente doente elegeu como centro do mundo. É fotografia funcionando como sintoma: a gente vê o que a obsessiva vê, na proporção errada em que ela vê.

Na ilha de edição, onde assina a própria montagem, Barker faz o filme respirar errado, e aposto que de propósito. Corta seco, antes da hora, decepando frases no meio do sentido; estica silêncios muito além de qualquer função dramática, até a inadequação social das cenas virar suplício. Há uma deliberação em prol da imersão aqui: ele alterna letargia e surto na cadência exata da paixão que retrata, e eu, sem notar, já estava respirando nesse compasso todo quebrado.

Barker dá à patologia do afeto peso de matéria. O terror mora na geometria, na luz, no tempo. O enredo, assim, quase não precisa fazer força para existir. E tem ainda a questão moral: ele não desvia a lente do grotesco, e quem não desvia junto vira cúmplice, num pacto sem cláusula de saída. Talvez seja esse o efeito mais duradouro do filme. Cumplicidade não é algo que sai quando o filme acaba. O aperto está comigo até agora, quase uma semana depois de ter assistido, feito cheiro de cigarro impregnado na roupa.

E acho que nem vai adiantar lavar.


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