Críticas


TOY STORY 5

De: McKenna Harris, Andrew Stanton
Com: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack
10.07.2026
Por Sihan Felix
A cordinha nunca escutada que se sabia de cor

Bonnie fez oito anos e ganhou um tablet. Chama-se Lilypad, tem formato de sapo, voz doce de assistente virtual e já vem sonhado de fábrica, sem precisar da imaginação de criança nenhuma. Andrew Stanton, que escreve esses personagens desde 1995 e agora divide a direção com McKenna Harris, tirou daí a pauta do quinto filme: telas, bullying virtual, o quarto que vira uma ilha. A pauta é urgente. O medo que sustenta a série desde o começo é mais velho e mais fundo, o de deixar de ser amado. Toy Story 5 inteiro se decide no vão entre as duas coisas.

D. W. Winnicott deu nome ao que essa franquia filma desde o início. Objeto transicional: o primeiro pertence que a criança ama, o pano, o urso, a boneca que mora na fronteira entre o eu e o mundo, aguenta tudo o que se despeja ali, o amor bruto, o esquecimento, e sobrevive. Toy Story pôs a teoria de pé, com chapéu e cordinha nas costas. Tela nenhuma serve para esse trabalho, porque o que já chega completo não guarda lugar para a criança dentro de si. O filme sabe disso por instinto. Ainda assim, sobe ao quadro para explicar, giz na mão, o que as cenas boas já tinham feito sentir.

Porque há sermão aqui, e ele ocupa espaço. Os pais compram Lilypad para resolver uma solidão, já que Bonnie não consegue fazer amigos, e o presente cumpre a promessa ao contrário: pela tela chegam as primeiras amigas e, com elas, a primeira humilhação, quando descobrem que a dona ainda brinca de boneca. O quarto se fecha. Os adultos assistem de longe, sem vocabulário. Está tudo certo, e é essa a sensação que incomoda: certo como uma cartilha. Lilypad tampouco vira lobo mau, prudência compreensível num estúdio que sabe onde este filme pode ir morar mais cedo ou mais tarde, numa tela igual a essa, no colo de alguma outra menina. Dessas cenas o filme tira eficiência e vai guardando a vertigem para outro lugar.

Enquanto isso, Jessie assume o centro e Woody encolhe, tornando-se uma espécie de participação especial. E a graça disso está na medida. Umberto Eco observou que uma série vive de variar o próprio esquema, e é essa a variação exata: o caubói terminou bem em 2010, terminou de novo em 2019, e revê-lo gasto, rindo da aposentadoria na beira da estrada, diverte sem cobrar nada de ninguém, muito menos do filme. Os Buzz de última geração, convencidos de que são patrulheiros de verdade, caem do lado errado da mesma fórmula... a piada fundadora da franquia surge requentada.

Mas a tal vertigem, o filme encontra longe dali. Separada do grupo, Jessie vai parar no rastro de Emily, a primeira dona, e cai no meio de brinquedos didáticos de uma safra anterior, aparelhos de aprender que já foram, trinta anos atrás, a novidade que ameaçava alguém. Todo brinquedo foi a Lilypad de sua época (diz o roteiro). A própria Jessie nasceu de uma tela, mercadoria de um faroeste infantil de televisão (assim como Woody), e o filme deixa essa ironia escondida (e talvez até esquecida), onde ela vale mais do que o sermão inteiro.

No meio de tudo, duas cenas fazem o serviço que a franquia consegue fazer melhor. Na primeira, Jessie é rejeitada outra vez. Ela sabe o roteiro do abandono de cor, e saber não a protege de nada: a dor volta inteira, no corpinho de pano. Na segunda, o filme paga uma dívida aberta desde 1999, desde o flashback em que uma canção de Sarah McLachlan fabricou o minuto mais triste da animação americana (será?). Winnicott escreveu que o objeto transicional não é esquecido nem chorado; o sentido dele perde a forma e se espalha pela vida de quem cresceu. É essa a descoberta que a cena entrega a Jessie: o que ela foi para Emily nunca saiu de Emily, só mudou de estado, virou modo de amar, matéria da mulher que a menina se tornou. Nas duas cenas, ninguém dá aula, ninguém dá sermão. E aí está a essência de Toy Story.

Saí da sessão do jeito que se saio de uma reunião de professores bem conduzida e, ao mesmo tempo, desnecessária: convencido e o mesmo. É tudo de primeira, o humor acerta quando quer, mas a sensatez, que foca na autoproteção da crítica que faz, parece que custou caro (ao menos para mim). Porque sensatez nunca moveu Toy Story.

Durante todo o filme, Jessie puxou a cordinha duas ou três vezes. Alguma coisa aqui dentro sabia as frases de fábrica mesmo sendo a primeira vez. É estranho, porque isso me pareceu mais forte do que a crítica necessária e cuidadosa demais em seu aparente medo de se lambuzar. Talvez essa sensação diga mais sobre mim e sobre a relação tão pessoal que tenho com todos os filmes (não devo ser tão mais velho que o Andy). Mas a crítica é isso: é pessoal antes de qualquer veredicto da inexistente verdade absoluta.


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