Críticas


PRESSÃO

De: ANTHONY MARAS
Com: ANDREW SCOTT, BRENDAN FRASER, KERRY CONDON, CHRIS MESSINA.
07.09.2026
Por Luiz Fernando Gallego
Para o espectador brasileiro, a cena mais importante de Pressão mostra como a seletividade tendenciosa de dados factuais serve a propostas muito ruins por sua falsificação

Para o espectador brasileiro, a cena mais importante de Pressão mostra como a seletividade tendenciosa de dados factuais serve a propostas muito ruins por sua falsificação. É uma cena rápida que radicaliza a posição do personagem principal, um escocês, em conflito com um colega de profissão estadunidense (ambos são meteorologistas). Só que o norte-americano vinha acertando previsões do tempo para avanços dos aliados em outras regiões e, com isto, conquistou a confiança do poderoso General Eisenhower - que queria certeza sobre as condições do tempo no Canal da Mancha para a travessia marítima na invasão da Normandia em 1944.

O roteiro usa a cartilha de seguir a trajetória do que é caracterizado como um homem comum (embora considerado por Churchill como um “gênio” em sua profissão) levado a um papel extraordinário na História, distante de sua vida habitual cuja atividade, segundo uma personagem, é entediante. Ele não concorda e, nas circunstâncias apresentadas, o filme mostra justamente o contrário, expondo de modo hábil uma tensão crescente - mesmo para quem conhece o fato histórico retratado.

Há acréscimos ficcionais forçados na vida pessoal do meteorologista James Stagg que serviriam para acrescentar mais peso à tensão, mas que ficam à margem da ação principal, encenada de modo eficiente dentro dos limites e acertos de grandes produções. No caso, o diretor Anthony Maras, também responsável pela edição e co-roteirista com o autor de peça original, seria o maior responsável pelos principais pontos fortes do filme. Mas é impossível imaginar que outro ator no lugar de Andrew Scott pudesse acrescentar tanto ao filme ao criar seu personagem - nada simpático inicialmente – sem cair num estereótipo sem interioridade. Ao contrário da composição exteriorizada de Brendan Fraser, adequada para a caracterização de Eisenhower, Scott atua com poucas ênfases, deixando para bem mais adiante a escalada de emoção dos momentos em que James Stagg entra em choque mais violento – verbalmente – com seu antagonista.

Para os cinéfilos mais antigos, este tipo de personagem obstinado que não cede em suas convicções e entra em conflito com todos à sua volta (desejosos de que ele pudesse dizer algo diferente daquilo que ele afirma) lembra os de famosos filmes do diretor Fred Zinnemann (1907-1997), como o xerife Gary Copper de Matar ou Morrer (1952), a noviça Audrey Hepburn de Uma cruz à beira do abismo (1959), ou o Thomas Morus de O Homem que não vendeu sua alma (1966). Pressão, adaptando a narrativa clássica a um ritmo de montagem que o espectador contemporâneo prefere, sem incorrer em excessos de filmes de ação, consegue alimentar o suspense de um enredo cujo desfecho já é conhecido historicamente: o que importa não é o que vai acontecer, mas como teria acontecido na ficcionalização de um fato real menos conhecido dos bastidores do "Dia D".



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