
As narrativas fílmicas que tratam do terror da maternidade a partir de construções alegóricas, flertando com o cinema de gênero, ou abraçando-o inteiramente, estão na moda. Em 2025, foram lançadas no Brasil duas obras dirigidas por mulheres que escolheram essa abordagem do tema: Morra, amor, de Lynne Ramsay, e Se Eu tivesse pernas, eu te chutaria, de Mary Bronstein, que figurou na seleção competitiva do Festival de Berlim do ano passado, inclusive rendendo a Rose Byrne o Urso de Prata de Melhor Atuação Principal. O filho da escuridão (no original, Yön Lapsi) segue este mesmo caminho e poderia ser considerado um Se eu tivesse pernas… transposto para o coração da floresta finlandesa.
O longa parte de uma premissa batida do cinema de terror: um casal decide começar a vida em conjunto e construir uma família reformando uma antiga casa herdada, convenientemente localizada em local isolado e pouco convidativo. Em O filho da escuridão, esses são Saga (Seidi Haarla), uma finlandesa decidida a ter três filhos e se dedicar inteiramente a eles durante a primeira infância, e seu esposo, John (Rupert Grint), um inglês encantado com a possibilidade de levar uma vida mais simples. Logo após se estabelecerem na nova residência, Saga engravida e dá à luz um bebê monstruoso, que parece conectado às estranhas forças da floresta que circunda a casa.
Deste ponto de partida, investiga-se mais uma vez a ideia do isolamento da maternidade e a simbiose entre mãe e bebê, com o corpo da mulher passando por diversas transformações, todas elas bastante violentas, enquanto o pai vive uma experiência bem menos visceral. Se essa temática já foi explorada à exaustão pelo cinema desde O bebê de Rosemary (1968), o filme não propõe nada novo, soando derivativo e previsível, ainda que conte com alguns momentos inspirados, principalmente no que se refere a direção de arte e fotografia, que trazem o ambiente da floresta para os interiores, numa invasão constante e assustadora. Falas como “Ser mãe é a maior felicidade do mundo, você não acha?” soam absolutamente banais, enquanto a escolha de mostrar o bebê com o rosto obscurecido, para ressaltar seu caráter sombrio, muitas vezes gera um efeito cômico indesejado.
Tamanha é a semelhança deste trabalho da finlandesa Hanna Bergholm com o longa de Bronstein que a sensação é de que o título americano lhe serviu de inspiração, muito embora os projetos tenham sido desenvolvidos, ao que parece, concomitantemente. Também aqui há um buraco algo sobrenatural que se abre em meio à harmonia do lar, para rompê-la cruamente, e também aqui temos uma criança cujo rosto é sonegado ao espectador até o desfecho e que se alimenta de maneiras não convencionais, que apenas a mãe domina. Se o conjunto consegue prender o interesse e traz boas atuações dos protagonistas, a sensação é, sem dúvida, de déjà vu.
*Texto originalmente publicado no Papo de Cinema durante a cobertura do Festival de Berlim 2026.