
Raros são os filmes que parecem tratar de um tema premente da atualidade por um viés que soa de fato original, obras que parecem dizer algo contundente e novo já na primeira sequência. Assim é Rainha ao mar, segundo longa-metragem do norte-americano Lance Hammer, que dirigiu Ballast (2008). O filme abre um amplo debate, de grande relevância social, através de uma premissa simples: o dilema de Amanda (Juliette Binoche), que decide denunciar à polícia Martin (Tom Courtenay), marido de sua mãe, Leslie (Anna Calder-Marshall), quando o flagra transando com a esposa, uma artista plástica já em estágio avançado de demência, com quem ele vive há dezoito anos. Enquanto Martin mantém a posição de que a relação sexual é uma demonstração de seu amor e conexão com a esposa, que segundo ele demonstra desejar o ato, que por isso mesmo seria benéfico para ambos, Amanda pondera que uma pessoa desconectada da realidade e com graves problemas cognitivos não é mais capaz de exercer seu consentimento.
O embate entre Martin e Amanda, muito bem delineado, não constrói mocinhos e vilões, nem faz com que um passe a odiar o outro. Ao contrário, padrasto e enteada estão unidos em seu intenso amor e sua grande dedicação a Leslie; em nenhum momento um duvida que o outro está, à sua maneira, tentando fazer o melhor para a enferma. Também o público deve ter dificuldade de escolher um dos lados do confronto, mesmo porque a legítima tentativa de proteção de Amanda submete Leslie a um estresse tanto maior (na sequência em que a filha leva a mãe para realizar um exame ginecológico, procedimento bastante desconfortável que tem por objetivo constatar possíveis lesões genitais, o filme problematiza a questão do consentimento em outra esfera). Um célebre professor de roteiro declarou uma vez: “Numa discussão escrita de maneira correta, um personagem está certo e o outro, errado; numa discussão escrita de maneira brilhante, ambos estão certos”. Rainha ao mar segue essa máxima durante a maior porção de seu desenrolar, caminhando na corda bamba de uma zona cinza que é, sem dúvida, a maior força do filme.
Outro ponto alto, um verdadeiro pico, são as atuações do trio central, irrepreensíveis e comoventes. Também se destaca a direção de fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso – indicado ao Oscar por desempenhar a mesma função em Sonhos de trem (2025) –, que, filmando em locação, apequena os personagens diante de uma casa ampla e um tanto ameaçadora, em que diversas vezes uma grande escadaria ganha centralidade na composição. Apesar dessa gama de qualidades, o filme foge aos poucos da abordagem repleta de nuances que parecia propor e põe-se a servir à mesma velha abordagem sádica da velhice, justapondo a esse terror o frescor pleno de descobertas da juventude, aqui encarnado na figura da filha de Amanda, Sara (Florence Hunt), uma adolescente que vive o primeiro amor.
O desfecho, infelizmente, compromete a bela construção edificada até ali, precipitando os personagens abruptamente ao abismo. A sensação, recorrente no cinema contemporâneo, é de que o roteirista (no caso, o próprio diretor), não sabendo como alinhavar seu intrincado bordado, decide por desfazê-lo num rompante de fúria. Ao espectador, resta a decepção de observar, atônito, o naufrágio.
*Texto originalmente publicado no Papo de Cinema durante a cobertura do Festival de Berlim 2026.