Críticas


HOPE: O PRIMEIRO IMPACTO

De: Na Hong-jin
Com: Hwang Jung-min, Zo In-sung, Hoyeon
01.10.2026
Por Marcelo Janot
Um ótimo exercício de cinema de gênero

A escalação do filme de terror sul-coreano Hope: O primeiro impacto na competição do Festival de Cannes deste ano foi um desconcertante golpe de mestre da comissão de seleção. Como se tivessem percebido que entre filmes que se levam a sério é preciso haver uma válvula de escape. Para que o espectador que passou o dia queimando os neurônios na maratona prazerosa e extenuante do evento sente na poltrona do cinema às 22h30 para encarar um filme de 160 minutos e não precise ficar lutando para não dormir. E também para que se perceba que uma diversão inconsequente, que não tenha a tal “cara de filme de festival”, pode propiciar mais reflexão do que o excesso de pretensão artística de certas obras.

Hope: O primeiro impacto é um ótimo exercício de cinema de gênero que soa como uma provocação à mitologia de Hollywood sem se esgotar no pastiche. Temos o policial durão autossuficiente, a heroína empoderada, os monstros que aterrorizam cidadezinhas do interior, música épica pontuando cenas de bravura e heroísmo em câmera lenta (com direito a pular do cavalo para um carro em movimento tal qual um Indiana Jones), e sobretudo a suspensão da descrença o tempo todo.

Com total liberdade para colocar na tela as ideias mais absurdas que vêm à cabeça, o diretor e roteirista Na Hong-jin criou uma história em que a pacata cidade de Hope é devastada por um monstro. Esse terço inicial é um primor de direção, em que o destemido policial Bum-seok (Hwang Jung-min) segue os passos de uma criatura que deixa como rastro corpos mutilados, casas destroçadas e carros arremessados para o alto. Como é o bicho? Ele só vai aparecer com 50 minutos de trama, mas de antemão sabemos que não vai ser sozinho com apenas com um rifle que o policial irá destruí-lo.

Se Hope fica perto de uma área militarizada perto da Coreia do Norte, por que não acionar o exército para enfrentar a criatura? Não espere explicações nem teses científicas, pois ao realizador o primordial é o relato de um personagem explicando em detalhes que viu quatro monstros na floresta enquanto enfrentava a maior diarreia de sua vida!

Falar mais que isso seria estragar as surpresas que se sucedem, uma mais bizarra e implausível do que a outra. Se um homem pode ser arremessado com toda força por uma criatura contra o tronco de uma árvore não uma, mas três vezes, cair de uma altura de cerca de 15 metros e depois ir atrás de vingança correndo como se nada tivesse acontecido, colocando metade do corpo para fora de um carro em movimento para demonstrar seu talento como atirador, é sinal de que absolutamente qualquer coisa pode acontecer. Até mesmo surgirem as vozes de Michael Fassbender e Alicia Vikander dublando as criaturas.

Tudo é temperado com o típico humor pastelão sul-coreano que por vezes nos faz lembrar gags dos Trapalhões, com personagens se comportando de maneira idiotizada. Tampouco importa se os monstros criados por CGI possuem alguns movimentos que parecem computação gráfica pré-histórica – o prazer está mesmo no deixar o tempo passar sem se entediar por um minuto sequer das quase três horas de duração.

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