
A promotora, prêmio do público no Festival de Berlim 2026, assim como o Urso de Ouro no mesmo festival (Cartas amarelas) abordam a escalada da extrema-direita na Alemanha, seja com perseguições políticas no caso de Cartas, seja através da omissão na Justiça, no caso de A promotora. Enquanto o detentor do maior prêmio em Berlim começa bem, mas se desenvolve muito mal, especialmente no subplot da filha do casal atingido pela perseguição até mesmo nos seus empregos, o preferido do público mantém, prioritariamente, o foco central até demonstrar a exposição de parcialidade num sistema jurídico que se considera excelente por sua alegada imparcialidade.
Não são meras coincidências as semelhanças com o desempenho de um pastor-ministro do Supremo que, no Brasil, seleciona quais investigações interessam dar a público e quais esconder, de acordo com sua ideologia fascista. O que pode dar especial interesse ao nosso público.
Assim como se pode perceber alguma coincidência nos caminhos heterodoxos tomados pela personagem do título brasileiro (e só pelo cargo que ocupa lhe dar acesso a outras investigações) para que um ataque que sofrera tenha a investigação aprofundada - enquanto seu chefe superior tenta reduzir a gravidade política do acontecido.
É chocante escutarmos que ter uma bandeira com a suástica em casa não configura algo importante para caracterizar um suspeito do atentado. Ou que a advogada de defesa do suspeito chame a promotora, que virou mais uma vítima de xenofobia, de “estrangeira” quando é uma alemã de nascimento com antecedentes (e traços faciais) orientais. E mesmo quando a promotora-vítima reivindica sua nacionalidade alemã, a mesma advogada diz que não interessa como ela prefere ser chamada, pois o que importa é como ela é vista.
Apesar da importância deste tipo de roteiro, ele não é isento de ressalvas que não vamos explicitar para não configurar spoilers. E até mesmo o desfecho, de algum modo (mesmo que não totalmente) idealista pode soar otimista neste momento de tanta gravidade mundial – e nacional – de recrudescimento do fascismo.