Críticas


CAVALO SELVAGEM NOVE

De: MARTIN McDONAGH
Com: JOHN MALKOVICH, SAM ROCKWELL, STEVE BUSCEMI, PARKER POSEY, TOM WAITS
04.11.2026
Por Luiz Fernando Gallego
Com algo de de neo-noir - ou filme B reciclado em produção caprichada, a cores e excelentes desempenhos, tendo o melhor de John Malkovich.

Quatro anos após o ótimo “Os Banshees de Inisherin”, o diretor Martin McDonagh lança outro filme de intensa repercussão, em boa parte graças ao desempenho irrepreensível de John Malkovich num personagem para o qual ele pôde usar toda sua gama de truques de ator: ironia, sarcasmo, deboche, ambiguidade - e fascinação – a ponto de transformar um tipo asqueroso em alguém quase simpático – ou pelo menos bastante interessante.

Com coadjuvantes de luxo como Parker Posey (perfeita em apenas duas cenas, falando ao telefone), Steve Buscemi e Tom Waits (numa única tomada, também ao telefone), Malkovich tem como co-protagonista o excelente Sam Rockwell – que em outro filme do diretor, Três anúncios para um crime, levou um Oscar que lhe era devido há tempos.

O enredo pode lembrar algumas coisas de um neo-noir - ou filme B, mas reciclado em produção caprichada, a cores e bem dirigida. Cavalo Selvagem Nove tem ótimos diálogos e bom roteiro em que apenas a personagem da estudante ‘Monica’ (Mariana Di Girolamo) soa pouco verossímil por ser desenvolvida de modo mais realista, o que soa um tanto inconvincente. Não que a psicopatia de agentes da CIA como Chris (Malkovich) e Lee (Rockwell) não seja algo realista, mas é apresentada naquele entre-tom que dá ao que é real uma pegada que pode parecer absurda em tons de humor negro (coisa que poucos filmes estadunidenses vêm conseguindo efetivar), como absurda pode ser a realidade brutal da geopolítica colonialista, ainda mais insensata do que a ficção mais descabelada.

Mencionando fatos históricos em que a CIA esteve envolvida de modo criminoso em diversos países que desagradavam o predomínio dos EUA (ainda que sem aludir ao golpe de 1964 no Brasil), o roteiro - basicamente ficcional - traz hipóteses muito loucas para eventos históricos (que não mencionamos para não incorrermos em spoilers), sendo que fazem lembrar a maxima italiana "se non è vero, è ben trovato".

Uma certa extensão da duração não chega a cansar, mas o filme poderia ter menos do que as suas quase duas horas de projeção. Mesmo assim, ter Malkovich num de seus maiores papéis minimiza qualquer crítica que se possa fazer a esta produção.

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