Críticas


CRIME DO PADRE AMARO, O

De: CARLOS CARRERA
Com: GAEL GARCIA BERNAL, ANA CLAUDIA TALANCÓN, SANCHO GRACIA
17.01.2003
Por Susana Schild
NOVELÃO EFICIENTE

Nos idos de 1875, Eça de Queiróz teve a pachorra de escrever um romance no qual não deixava hóstia sobre hóstia em relação ao clero. Sua trama é bastante conhecida: Amaro, um padreco de província, é tentado por uma linda moçoila, Amélia, de 16 anos. O inevitável acontece, a moça engravida. Um pecado leva a outro: depois de pecar contra a carne, Amaro esconde a moça, a criança nasce. Em seguida, retira-lhe o filho recém-nascido, e o entrega a uma "tecedeira de anjos", que ceifa a vida daquela alma ainda pura. Amelinha, sangra até morrer e o padreco de meia tijela vai para Lisboa sem mácula na consciência ou na batina.



Mais de 125 anos depois, o México foi sacudido por um terremoto quando o cineasta Carlos Carrera, em seu quinto loga-metragem, leva às telas uma adaptação do texto do autor português. Com algumas diferenças: a ação foi atualizada para tempos contemporâneos, há padres de esquerda, na linha teologia da libertação, e outros ligados ao narcotráfico. No filme, Amélia morre de aborto providenciado pelo Padre, a quem compete encomendar a alma da moça ao Divino. Como pano de fundo, a luta pelo poder, ligações perigosas da Igreja com representantes do poder, corrupção, o papel da imprensa e, de forma enfatizada, o questionamento do celibato de padres.



Com esses ingredientes explosivos, o diretor Carlos Carrera optou por uma narrativa assumidamente direta, sem enveredar por sutilezas, ambigüidades, metáforas, ou simbolismos, que marcaram, por exemplo a obra do anticlerical ferrenho, Luis Buñuel, sobretudo em Viridiana.



A intenção de Carrera, presume-se, era falar da forma mais direta possível dos riscos de uma sociedade que ainda treme sob as diretrizes canônicas de setores ultraconservadores da Igreja. Para isso, mantém sintonia muito próxima a um gênero essencialmente mexicano - o melodrama, no qual os personagens são facilmente transformados em arquétipos do bem, do mal, da santa e do pecador, do algoz e da vítima, e por aí vai. Uma das bases do melodrama - e também da sua permanência no contato com o grande público - é a ausência de meios-tons e outros matizes da alma humana. Carrera seguiu a cartilha e realizou um filme de narrativa fluente, competente e, como queria, de fácil empatia com o púlbico.



Curiosamente, O Crime do Padre Amaro foi realizado pouco antes da Igreja Católica ser sacudida em todo o mundo por acusações de padres pedófilos. O filme de Carrera não vai tão longe. Na verdade ele se atém a questões tão velhas como Adão e Eva: o desejo entre homens e mulheres.



O Crime do Padre Amaro tem equipe técnica de primeiro time no cinema mexicano: produção de Alfredo Ripstein (pai do cineasta Arturo Ripstein), roteiro de Vicente Leñero (O Beco dos Milagres, de Jorge Fons, entre muitos outros), fotografia de Guillermo Granillo, parceiro de vários filmes de Arturo Ripstein, como Profundo Carmesi, O Evangelho das Maravilhas, Assim É a Vida). No elenco de muitos atores mexicanos veteranos, Gael Garcia Bernal se sai bem como um padre de carne fraca, espinha mole e total ausência de caráter. Ana Claudia Talancón, em seu segundo papel no cinema, faz uma Amelinha de telenovela: carinha de santa e olhares tentadores para o homem sob a batina. E é isso que é O Crime do Padre Amaro de Carlos Carrera: um eficiente novelão sobre pecados da Igreja.



# O CRIME DO PADRE AMARO (EL CRIMEN DEL PADRE AMARO)

México, 2002

Direção: CARLOS CARRERA

Roteiro: VICENTE LEÑERO

Produção: ALFREDO RIPSTEIN e DANIEL BIRMAN RIPSTEIN

Fotografia: GUILLERMO GRANILLO

Montagem: OSCAR FIGUEROA

Música: ROSINO SERRANO

Elenco: GAEL GARCIA BERNAL, ANA CLAUDIA TALANCÓN, SANCHO GRACIA, ANGELICA ARAGÓN

Duração: 118 min.

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