Filmes sobre boxe costumam nocautear o sistema defensivo do espectador com um coquetel que inclui sonho, luta, decadência, superação e a presença de uma alma devotada para ajudar. Como não ser solidário com personagens que apanham tanto no ringue e, geralmente, mais ainda, fora dele. Rocky(s) , Touro Indomável , Menina de Ouro , O Lutador , clássicos como Punhos de Campeão ( The Set Up , de Robert Wise /1949), entre muitos outros, provam que beijar a lona tem lá suas compensações. A Academia de Hollywood, por exemplo, adora perdedores que dão a volta por cima. O candidato da vez é O Vencedor , de David O´Russell ( Três Reis , Procurando Encrenca ), com sete indicações: filme, diretor, roteiro original, edição, ator coadjuvante (Christian Bale, a barbada da categoria) e atriz coadjuvante (Melissa Leo e Amy Adams).
Mesmo com os ingredientes de praxe, O Vencedor , baseado em história real, conta com um diferencial de peso: o contexto dos personagens. A história começa com a realização de um documentário ( High on Crack Street: Lost Lives in Lowell , de 1995) sobre uma ex-celebridade de uma cidadezinha de Massachussets. Trata-se Dicky Eklund (Christian Bale, devastador), boxeador promissor dos anos 80, que trocou as luvas de boxe pelo crack e pequenos crimes. A rigor, Dicky deixaria um herdeiro, o irmão menor Micky ( Mark Wahlberg ), a quem treinou nos velhos tempos. A família se completa com um núcleo bizarro: a mãe (Melissa Leo, excelente), um mix de permissividade, destempero e agente dos ‘meninos’, além de sete filhas que deleitariam John Waters.
Diferente de personagens afins, Micky , apesar de bonitão e da boa forma física, é um derrotado por conflitos e sentimentos de humilhação. Seu maior adversário, não está nos ringues, mas em casa. Vive às turras com a mãe e as irmãs, e deve, sobretudo, superar a ambivalência em relação ao irmão, que lhe desperta pena, raiva e um brutal sentimento de culpa. Afinal, como superar o ídolo autodestrutivo, que insiste em treiná-lo para que consiga justamente o que deixou escapar?
A família ainda sonha com um vencedor, e Micky tem alguns aliados, como o sargento treinador Mickey O´Keefe que interpreta a si mesmo. A arena começa a mudar com a entrada da mocinha nada convencional Charlene (Amy Adams, também excelente). Determinada, desbocada e apaixonada, ela assume o posto de leão de chácara do namorado rumo a uma nova oportunidade. A garota enfrenta todas – começando pela sogra e cunhadas, que em cena similar a de Inverno da Alma ‘peitam’ um acerto de contas onde homem não entra.
Como indica a tradução literal do título ( The Fighter ) Micky está mais para lutador do que vencedor. É com habilidade que David O´Russell alterna a alta voltagem de treinos e lutas, com virtuoso uso da câmera de mão e embates familiares – os confrontos entre os dois irmãos são dilacerantes. Com trilha sonora e montagem afiadas e elenco bom de briga, O Vencedor demonstra que a vitória mais importante não ocorre quando se derruba um adversário por k.o. mas quando se derrotam antigos fantasmas, mesmo os mais fraternos.
Crítica publicada no Rio Show (O Globo) em 4 de fevereiro 2011.
# O VENCEDOR (THE FIGHTER)
EUA, 2010
Direção: DAVID O. RUSSELL
Roteiro: SCOT SILVER, ERIC JOHNSON, PAUL TAMASY
Fotografia: HOYTE VAN HOYTEMA
Edição: PAMELA MARTIN
Música: MICHAEL BROOK
Elenco: MARK WHALBERG, CHRISTIAN BALE, MELISSA LEO, AMY ADAMS, MICKEY O´KEEFE
Duração: 115 min