Crítica publicada no suplemento Rio Show de O Globo em 25 de fevereiro de 2011
O concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo Canadá apresenta um tema comum a tragédias gregas: a busca das origens e da verdade. Seu contexto, no entanto, é bem atual: confrontos religiosos, sobretudo no Oriente Médio. Adaptação da peça homônima de Wajdi Mouawad, aclamado autor de origem libanesa radicado em Montreal, e quarto longa de Denis Villeneuve, Incêndios opta por deixar os conflitos como pano de fundo e se fixar no indivíduo - este sim, universal e atemporal em suas dores , desejos de vingança e de recomeço.
O estopim da trama são duas cartas de Nawal Marwan (Lubna Azabal) entregues após sua morte aos filhos gêmeos, com o desejo de que procurem o pai e o irmão. Detalhe: Jeanne (Melissa-Desormeaus Poulin) e Simon (Maxim Gaudette) acreditavam que o primeiro estava morto e desconheciam a existência do segundo. Jeanne é a primeira a obedecer e parte para uma região não identificada, mas marcada por embates entre cristãos e muçulmanos, que devastaram o Líbano de 1975 e 1990. O irmão, a princípio reticente, a encontra pouco depois, assessorado por um tabelião paternal (Rémy Girard) .
"Às vezes, é melhor não conhecer toda a verdade”, aconselha um dos personagens a Jeanne ao longo do percurso. Mas como dar meia volta depois de iniciar a caminhada?
Apoiado em roteiro brilhante, interpretações intensas, alta qualidade de fotografia e trilha sonora , Dennis Villeneuve exibe forte domínio narrativo e, através de uma montagem primorosa, entrelaça presente e passado de forma orgânica e perturbadora, sem maniqueísmos.
Na busca da própria origem, Jeanne e Simon descobrem a história da mãe, suas perdas e violências, a prisão em uma cadeia perversa de ódios fratricidas. Em sua complexidade, Nawal Marwan desponta como notável personagens da dramaturgia contemporânea, sem atingir, sabiamente, o status de heroína. Até o final ela permanece como uma mulher comum ‘que nunca se dobrou’, e que fez das entranhas coração para digerir o ódio, revelar a sua verdade aos filhos e sentir-se digna de um epitáfio por ter cumprido não só uma promessa mas contribuído para o fim da guerra em seu mundo particular.
Em Incêndios, a verdade é revelada em ritmo cadenciado, entrecortada por cenas de altíssimo impacto, como a que dá título ao filme. O final, desconcertante e inesperado, é de tirar o fôlego do espectador mais calejado. Desde já, candidato a um dos melhores filmes de 2011.
# INCÊNDIOS (INCENDIES)
Canadá/França, 2010
Direção: DENNIS VILLENEUVE
Roteiro: DENNIS VILLENEUVE, VALÉRIE BEUAGRAND-CHAMPAGNE, WAJDI MOUAWAB, baseado em peça deste último;
Fotografia: SANDRÉ TURPIN
Edição: MONIQUE DARTONNE
Música: GRÉGOIRE HETZEL
Elenco: LUBNA AZABAL, MÉLISSA DÉSORMEAUX-POULIN, MAXIM GAUDETTE, RÉMY GIRARD, ABDELGHAFOUR ELAAZIZ.
Duração: 130 minutos